15 Jun 14
A ver o Mundial (3)
Pedro Correia

Nada me faz apreciar tanto uma partida de futebol como um rasgo de inteligência.

Aconteceu esta noite, quando iam decorridos 35' do Inglaterra-Itália, disputado nesse monumento ao desperdício brasileiro que é o novo estádio de Manaus. Na marcação de um canto, a bola é cruzada em diagonal do ângulo superior direito do ataque italiano, supostamente para Andrea Pirlo, situado a poucos metros da área inglesa. Contrariando as expectativas, Pirlo não retém a bola: deixa-a seguir propositadamente para Marchisio, uns metros atrás e em melhor posição para desferir o remate. Assim acontece: com um pontapé seco e bem colocado, o italiano põe a sua selecção a vencer.

Era um dos desafios mais difíceis para a squadra azzurra. Desafio superado com êxito: a equipa inglesa, bem apetrechada e com sólido dispositivo táctico, ainda empatou a remate de Daniel Sturridge após boa abertura de Wayne Rooney. Mas os italianos traçaram o destino do encontro num golo que Balotelli marcou de cabeça, com assistência de Candreva.

 

Pirlo, de 35 anos, é um dos raros sobreviventes do onze italiano que venceu o Mundial de 2006. Depois disso, muitos outros jogadores cheios de talento despontaram no patamar mais elevado da modalidade. Mas, quase como uma relíquia de outras eras, ele mantém intactas as características que o notabilizaram: mestre da finta em espaço curto, especialista em passes longos que produzem soberbas variações de flanco, dotado de uma excepcional visão de jogo, ele é sobretudo a inteligência em movimento. Como aliás ficou bem patente na forma superior como marcou um livre, já no período suplementar da segunda parte, fazendo a bola embater na barra: se fosse uns centímetros mais abaixo a Itália ampliaria os números desta vitória. Por momentos o guarda-redes Joe Hart deve ter revivido os quartos-de-final do Euro-2012, quando um penálti marcado por Pirlo eliminou a Inglaterra.

Um desporto colectivo, como é o futebol, não dispensa - antes exige - a explosão de talentos individuais daqueles jogadores que fazem realmente a diferença. Como sucedeu naquela simulação de Pirlo que abriu espaço ao golo inicial dos italianos, baralhando por completo as marcações inglesas. E rasgando assim o caminho que conduziu ao triunfo. Numa clara demonstração, como observou o jornal El País, de que pratica a "arte de pensar com os pés".

 

....................................................................

 

A maior figura do dia de ontem emergiu inesperadamente do Costa Rica-Uruguai: Joel Campbell, o ponta-de-lança costarriquenho que marcou o primeiro dos três golos da sua equipa, derrotando de forma categórica a selecção que ficou em quarto lugar no Mundial de 2010.

Quase no fim do encontro, Campbell foi agredido por Maxi Robocop Pereira, que entendeu praticar no Mundial a sua concepção muito pessoal de desporto, cruzando futebol com artes marciais. Ao contrário do que por cá sucede, o árbitro aplicou a lei, mostrando-lhe o cartão vermelho. Nada a ver com os brandos costumes da pátria lusa, onde só falta os árbitros pedirem baldes de pipocas para verem, embevecidos, o Robocop uruguaio em acção.

 

Inglaterra, 1 - Itália, 2

Costa Rica, 3 - Uruguai, 1

 

Robocop himself


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9 comentários:
De André a 15 de Junho de 2014 às 01:48
caro Peddro Correia,

Pirlo é um mestre mesmo com 35 anos.
Uma sugestão agora que a sua análise aos 23 está quase no fim penso que faltam 3 Ruben Amorim André Almeida e Rafa, poderia também escrever sobre o nosso selecionador até ao momento concordo com a sua opinião sobre a grande maioria dos jogadores que estão no mundial ou outros que poderiam estar (casos do Quaresma e o João Mário)


De H a 15 de Junho de 2014 às 09:21
Que insistência em pedir uma análise ao Rafa... Não vê que desde que o Braga jogou com o Sporting ele ainda não conseguiu sair do bolso do William Carvalho? ;-)

SL


De Pedro Oliveira a 15 de Junho de 2014 às 09:41
Caro André,

O Rafa e o André Almeida (quem?) não constam da colecção oficial de cromos da Panini (Fifa World Cup Brasil).
A selecção de Portugal está nas páginas 60 e 61 e nelas constam Antunes e Josué (cromos 515 e 516, respectivamente).
Deve ser por isso que Pedro Correia não falou (ainda) em Rafa e no André Almeida (quem?).


De Pedro Correia a 15 de Junho de 2014 às 10:44
Caro Pedro: o nosso amável leitor André não reparou que eu já tinha escrito sobre o Rafa, aqui:
http://sporting.blogs.sapo.pt/rumo-ao-mundial-21-1490173
Caso para dizer: fintámos a Panini.
Quanto ao Josué, está no seu elemento natural: é um bom cromo.


De Zé da Mouraria a 15 de Junho de 2014 às 17:20
admira-me que não conheça o André Almeida.

ao que sei, começou a dar uns pontapés na bola, no pastilhas do Lumiar e joga agora, no 5º classificado da UEFA.

é um cepo' que sabe das suas limitações, mas com trabalho e humildade, deixou em terra 3 ou 4 ou 5 u até 6 (é só escolher) dos "fora de série" (não consigo deixar de me rir, ao dizer isto) formados na escolinha do visconde das nádegas e sanitas.

não deixe de ir comemorar o título da Panini. como estará esquecido, ao fim de 12 anos, ensino-o e sem reservas....

é tudo a saltar...é tudo a saltar...rumo ao Marquês!!!




De João André a 15 de Junho de 2014 às 11:26
A cumprir um hábito muito moderno, o Pirlo escreveu a sua autobiografia. Para destoar (e ser autêntico) escreveu-a ele próprio (com ajuda, é certo) e deu-lhe o título de "Penso, logo jogo". E para ser ainda mais único, aparentemente é interessante (li-lhe apenas um ou outro extracto).

A melhor parte é quando descreve o encontro com Guardiola em que este lhe explica como o Barcelona o vai tentar comprar ao Milan. Ele descreve toda uma conversa com Guardiola até nos apercebermos que ele, Pirlo, na realidade não abriu a boca na conversa. Este excerto é brilhante.

Também interessante é a parte em que ele explica como passou horas e horas a ver os livres de Juninho Pernambucano (antigo jogador do Lyon) até perceber como os reproduzir. O livre de ontem demonstrou que foi tempo bem usado.

Já agora: descreves Pirlo como o mestre da finta curta, mas eu raramente o vejo fintar. Ele não precisa disso. Recebe sempre a bola com espaço (a mior especialidade dele é procurar o àngulo para poder receber a bola) e tem sempre tempo para a passar. Quando o apertam ele não precisa de fintar porque a passa antes disso. Nasceu demasiado cedo: no passado ainda deixavam fazer tackles demasiado fortes. Hoje, com a protecção que existe aos artistas, Pirlo vive a sua era dourada. Ainda assim, deixo aquele que será talvez o meu golo preferido, obra de dois grandes artistas: Pirlo no passe e Baggio no golo:
http://www.youtube.com/watch?v=owN0W1c90zw


De Pedro Correia a 15 de Junho de 2014 às 12:28
Destaquei o teu comentário, João. Merece lugar à parte.


De André a 15 de Junho de 2014 às 14:38
caro Pedro correia,

já tive a oportunidade de ler a sua referência ao rafa, e mais uma vez concordo com o que escreve, muito bem escrito.
Peço desculpa pelo meu erro.


De Pedro Correia a 15 de Junho de 2014 às 21:42
Não há nada que pedir desculpa, André. Apareça sempre.


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