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És a nossa Fé!

A impagável revelação de Tonecas Três Érres

A vida às vezes dá-nos bofetadas e empurra-nos, outras acaricia-nos e puxa-nos.

O episódio que vou tentar colocar por escrito, é ao mesmo tempo uma bofetada e uma carícia, uma interrogação, uma certeza.

Um destino.

Estava sentado numa esplanada à beira (Azenhas do) Mar a tomar aquilo que em tempos foi definida como a água suja do capitalismo, com duas pedras de gelo e uma rodela de limão.

Olhava o mar e a areia e pensava em nada, pensava em tudo.

- Olhó Pedro, és mesmo tu... dá cá um abraço.

Confesso que demorei a identificá-lo, à minha frente estava o António Ramos Reis Ramalho, estava ele mas com menos trinta quilos dele.

- Tonecas, então, há quanto tempo não nos vemos, senta-te aí.

- Não nos vemos desde o dia 21 de Abril de 2002, lembras-te?

O meu cérebro começou a funcionar como um carro em marcha à ré, primeiro devagar, depois como um salto no tempo, caí naquele dia, numa tasca perto da Cidade Universitária, o Tonecas estava lá, todo vestido de negro com os seus imponentes 105 quilos, um rabo de cavalo e uns óculos escuros redondos.

- Claro que lembro, Tonecas, foi na rua do Colégio Moderno eu ia para Alvalade para ser campeão e tu ias para um concerto duns gajos belgas muito manhosos que ninguém conhecia na Aula Magna.

- Combinamos encontrar-nos no Bairro Alto, a seguir ao concerto mas a vida é feita mais desencontros que de encontros.

- Pois é, 15 anos...

- Sabes Pedro, mudei muito desde esse dia, lembras-te como eu era?

- Claro que lembro, eras mais forte.

Três Erres sorriu.

- Era mais forte mas era o Ramalho (tínhamos esta brincadeira desde putos, brincando com o apelido do Tonecas) era mais gordo. Pesava 105 quilos.

Enquanto conversávamos, sentíamos o cheiro do mar, pressentíamos as gaivotas que nos esvoaçavam, estávamos felizes por sermos amigos e por estarmos juntos, como todos os momentos de felicidade, aquele também acabou.

Acabou, numa forma de mancha castanha que se espachou malcheirosamente pela mesa, uma gaivota largara-se, ao contrário do Salvador Sobral não preveniu ninguém.

Ficámos como se estivéssemos num minuto de silêncio (sem palmas) não sei se passou um minuto, se uma hora, sei que acabara de presenciar um fenómeno qualquer, uma epifania.

Tonecas Três Érres, também conhecido, como António Ramos Reis Ramalho olhou-me, fitou-me profundamente e disse como se estivesse possuído por todos os Zandingas, os Bruxos de Fafe, os Nhagas e os Professores Alexandrinos do universo, disse ou melhor afirmou:

- Os pássaros só fazem merda, Pedro.

Mesmo que quisesse (e não queria) não conseguiria desmentir o meu amigo, a mancha castanha na mesa era a prova física, palpável e cheirável da razão que assistia a Tonecas.

- Hoje não nos encontramos por acaso, Pedro, lembras-te para onde ias há quinze anos, lembras-te como acabou o jogo?

 

(lembro sim, este "post" já vai longo e contarei o resto da história/da revelação oportunamente)

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