07 Fev 12
Uma história
António Manuel Venda

 

Os golos de Jardel nunca foram imortalizados numa canção

 

Um jantar num restaurante em Lisboa, com alguns colegas de trabalho. E em Aveiro jogava o Sporting; em Aveiro e, como nos últimos anos se tornou regra, na televisão. Fins de Outubro. Eu pelas ruas de Santos à procura do restaurante, a lembrar-me de que quando ia aos jantares do PEN Clube, ali pelas redondezas, era mais fácil, porque marcavam mesa para a York House e aí, além disso, eu tinha quase sempre a sorte de chegar ao mesmo tempo que saía um carro de um lugar junto à entrada. Mas naquela noite tudo estava a ser diferente. Lugar para o carro nem sinal, por mais voltas que desse, com o circuito a incluir até uma boa parte da Lapa. Acabei por ir para um parque subterrâneo dos novos, um bocado longe, e depois toca a andar a pé. Tinha-me esquecido do nome do restaurante, e ninguém me atendia o telemóvel. Devia ser nalguma cave, foi o que pensei, ou então nalgum descampado urbano onde a rede não chegasse. Quem sabe poderia haver ali no meio do casario a cair uma planície municipal à espera de alguém, eventualmente de Braga, que lhe pusesse as unhas sem o vereador Sá Fernandes dar por isso…

Bom, o que interessa é que ao fim de uns cinco restaurantes lá encontrei aquele que me interessava. Quer dizer, aquele que procurava. Era mais tipo tasca. Se calhar as operadoras de comunicações móveis estavam a apostar pouco nas tascas em termos de qualidade da rede. Podia ser isso. Ali quase não havia rede. Mas eu tinha conseguido chegar, e pelo caminho tinha passado por um restaurante ou outro a atirar para o fino, nas minhas procuras já a pensar que na volta tinha de me meter a caminho de casa. Mas o pior era o Sporting a perder.

Um a zero para a Beira-Mar, e ainda por cima – como dizem os sempre criativos relatores do mundo do pontapé na bola – o relógio não parava (ou o tempo ia passando). Mas as coisas recompuseram-se e a certa altura já parecia que a vitória não iria escapar ao meu clube. Só que no fim, quase sem eu perceber como, a coisa acabou num empate a três. Os golos que o Sporting sofreu pareciam-me cada um mais esquisito do que os outros, isto se durante o dia os pusessem a passar repetidamente num ecrã que me adaptassem aos óculos escuros; uma coisa do género do que acontece a um português chamado Hulohot que o hiper-imaginativo Dan Brown arranjou para um dos livros que escreveu. Curiosamente, esse português, na volta resultado de alguma dica temporã do nobel Saramago, expressa-se em várias páginas na língua de um senhor famoso de apelidos Cervantes Saavedra; mas Hulohot é lisboeta, não direi de gema mas pelo menos de nascimento («Hola! Soy Hulohot!»).

O empate do Sporting em Aveiro, e na televisão, deixou-me triste. Mas foi uma tristeza, digamos assim, especial; uma tristeza que vinha misturada com alguma emoção. Do lado do Beira-Mar tinham estado o treinador Augusto Inácio e, em campo na parte final do jogo, o avançado Mário Jardel. Ao ver Inácio de pé junto ao banco e a movimentação de Jardel no lance em que Ricardo deu o frango de um dos golos do Beira-Mar, lembrei-me dos últimos dois campeonatos que o Sporting tinha conquistado – o de 2000, com Inácio a pegar na equipa já com a época em andamento, e o de 2002, com Jardel a chegar atrasado mas ainda a tempo de marcar quarenta e dois golos.

O treinador da equipa campeã com Jardel era o romeno Boloni, que tinha passado a usar um nome próprio húngaro. Lembro-me de que nos tempos de jogador do Steaua de Bucareste, campeão europeu em 1986, antes do apelido aparecia sempre Ladislau, o nome romeno, em vez do húngaro Lazlo. No Verão de 2001 tinha chegado a Portugal como «o senhor Lazlo Boloni», ou apenas «o senhor Boloni». Poucos imaginavam que pudesse ser logo campeão. Mas acabaria por ser, e graças aos golos de Jardel, que começou a jogar à quarta jornada, com peso a mais como alguns anos depois voltaria a aparecer em Aveiro.

Foi Jardel quem salvou o treinador Boloni, e foi um outro Jardel, atolado em problemas, que no campeonato seguinte acabou por tramá-lo. Mas a conquista do campeonato que terminou à entrada do Verão de 2002 (a que se juntou a taça, com um golo de Jardel) valeu por muito, muito mesmo. Só com isso Jardel ficou na história do meu clube. Provavelmente para sempre. Com os seus golos.

***

Há uma canção de Rui Veloso que fala de Jardel, embora seja o Jardel dos tempos do Futebol Clube do Porto. Deixa os golos de fora; o que lá aparece é o modo de Jardel se movimentar na grande área, ou pelo menos um dos modos (o verso «voar como o Jardel sobre os centrais»). Lembro-me de que com Jardel no Sporting eu achava despropositada a imagem apregoada por Rui Veloso. Principalmente pela paixão transmitida pelo cantor, e até por alguma pronúncia do norte. A canção com uma figura incontornável da cidade do Porto, mas incontornável só até à entrada no Sporting… Depois de Jardel vestir de verde e branco talvez Rui Veloso devesse ter arranjado uma outra canção, na qual poderia meter um verso que falasse do «fantasma de Jardel», coberto ou não com um lençol branco, voando ou não fosse lá sobre que centrais fosse, até sobre os da própria equipa do Porto.

Nos primeiros anos de Jardel no Porto eu não apreciava a maneira de ele jogar. Achava até que só conseguia marcar tantos golos porque passava os jogos na grande área adversária a viver da insistência atacante da equipa (especialmente, como dizem os especialistas, pelas faixas laterais). Eu não era capaz de apresentar uma razão, simplesmente não gostava. Talvez a verdadeira razão fosse ele não estar no meu clube. Sei de quem, por exemplo, não gostava de Jardel por achar que ele andava sempre muito direito no campo, como se tivesse engolido um garfo de metro e meio. Mas comigo não, eu não gostava e pronto.

Com o tempo fui-me habituando a admirar Jardel. Por alguns dos golos que o via marcar; ao Braga e ao Farense, por exemplo (um a cada equipa, de fora da área, sem deixar a bola cair no chão); um ao Campomaiorense, passando a perna do remate por detrás da outra; os golos ao Milan no estádio de San Ciro, um golo em Munique, outro em Madrid... Ele marcava sempre, ou quase sempre. E no Sporting, depois, a mesma coisa, especialmente na primeira época, golos e mais golos, e voos sobre os centrais, como no verso da canção de Rui Veloso que tornou imortal uma das suas movimentações. Tantos golos… Mas esses nunca foram imortalizados numa canção.

 

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De Zélia Parreira a 8 de Fevereiro de 2012 às 17:55
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