01 Jan 12

 

Uns falarão aqui neste blogue do presente e do futuro. Eu partilharei o passado. Não porque seja saudosista ou tenha idade para tal, mas apenas porque gosto de contar histórias, sejam elas as que vivi ou as que passei a viver, logo após conhecê-las através da voz ou da escrita de quem mas ofereceu.
Dito isto, quero também contar-vos as razões porque sinto um carinho especial com  a história toda ela por relatar devidamente de José António Barreto Travassos. Para começar, irrita-me o advérbio de modo, «Curiosamente», que classifica en passant na sua biografia online esse acto primordial da chamada, o facto determinante que apenas pode ser visto como indiferente ou casual por quem desdenha as elementares leis do Universo. Falo da circunstância de, no dia 22 de Fevereiro de 1926, Travassos ter nascido no exacto local onde seria construída a depois baptizada ‘Bancada Nova’ do Estádio de Alvalade.
A somar a isso - que nem um rodapé mereceria, caso essa mesma chamada (como acontece a tantos) não tivesse obtido a devida correspondência no cumprimento do desígnio de algum além – eis que “O Leão da Estrela” imortaliza e reproduz numa cena de antologia o remate em moinho de Travassos, aquele mesmo que enfiou a bola nas redes da baliza do Porto perante um estádio temporariamente silencioso entre o espanto e a euforia. Em gerúndios foi algo como assim: Travassos elevando-se de lado, chutando a bola, prescindindo da gravidade, dominando a geometria, muito para além daqueles que apenas a estudaram na sua redutora e incompleta expressão em duas dimensões numa qualquer folha de papel. 
Transcreve-se na Wikipedia – reprodução para a qual não disponho de provas de fidelidade, mas na qual acredito porque me apetece e acrescenta ainda uma pitada de sal a esta história que conto -  as palavras de um jornalista inglês escritas em 1951: "Portugal não figura entre os seis primeiros países da Europa do futebol, mas possui um interior-direito, Travassos, que vale quatro mil contos. Travassos, com um penteado impecável, é tão brilhante com os pés como o seu inalterável penteado de brilhantina".
No entanto, não foi esse “inalterável penteado”, tão imutável quanto esse sorriso que ilumina cada uma das fotografias dele que nos restam,  que o transformou no “Zé da Europa”. Foi  mais um passo no caminho de cumprimento dessa chamada, o de ter sido o primeiro jogador de futebol português a integrar a selecção da Europa em 1955 contra a Grã-Bretanha (E a quem atentar que já na época os ingleses não eram vistos como europeus, saiba que ele há coisas que não mudam). 
Com Albano, António Jesus Correia, Peyroteo e Vasques, Travassos foi um dos 'Cinco Violinos'. “Na sua estreia no Campeonato Nacional a 16 de Fevereiro de 1947 foi autor de 3 golos ajudando a golear o Benfica por 6-1, num jogo disputado no Estádio do Lumiar e que lhe valeu um relógio de ouro como prémio pela exibição”. Esta parte vem também na Wikipedia.
O que não se diz na internet - a parte essencial quanto a mim da história por escrever da vida desse homem que nasceu onde seria a bancada do Estádio, que era brilhante da cabeça aos pés e a quem chamaram violinista pela virtuosidade do seu jogo - é se foi ou não feliz. Quero acreditar que sim. Sei que sim. Porque o “Zé da Europa”, mesmo deixando a carreira de futebolista em 1958 devido a uma lesão, só poderia ter vivido até 2002 com a sabedoria de quem correspondeu à chamada que o fez nascer, numa bancada por existir.
Imagino-o até ao fim dos seus dias vendo e revendo o “Leão da Estrela”. E rindo-se, rindo-se dobrado com as mãos no estômago de cada vez como se fosse a primeira, ao ver António Silva erguer o dedo indicador e bradar ao adepto portista: “Um a zero…Vais levar cá uma cabazada!”.


comentar
2 comentários:
De Francisco Almeida Leite a 1 de Janeiro de 2012 às 17:32
Magnífico texto, João.


De Pedro Correia a 1 de Janeiro de 2012 às 19:00
Chama-se a isto começar da melhor maneira. Um abraço, João.


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