11 Out 12

Outros falarão aqui nestas páginas, finda uma agitada semana, sobre todas as magnas questões destes dias, atravessados por uma tempestade de areia cuja poeira parece ainda longe de assentar mas que espero o faça em breve, para que possamos ver com clareza o rumo a seguir e o fim da travessia deste deserto onde os oásis escasseiam. Não descuro que tais discussões sejam fundamentais, mas cabe-me preencher este lugar vago com uma nota mais ligeira e propor-vos uma viagem na máquina do tempo, contando-vos uma singela história em duas partes. Ela foi-me confidenciada por um familiar do visado, sportinguista de gema mas que me escuso de nomear aqui, e é a história de um presidente do Benfica que na verdade era adepto do Sporting Clube de Portugal.

De seu nome João Tamagnini de Sousa Barbosa, era mais conhecido pela combinação do segundo e do último dos apelidos. Entre Dezembro de 1917 e Dezembro de 1918, ocupou nada menos do que quatro pastas ministeriais no Governo do malogrado Sidónio Pais. Após o assassinato de Sidónio, seria inclusive ele próprio primeiro-ministro durante apenas um mês, acumulando com o cargo de Ministro do Interior.

Depois disso, anos passaram. Tamagnini Barbosa não esqueceu no entanto a política e foi despertando sobre si o lado menos simpático da atenção de Salazar. Após o fim da II Guerra, Brigadeiro, brasonado e de óptimas famílias, respeitado na ala à direita da União Nacional pelo seu passado e currículo, foi identificado como persona non grata e tudo indicava que o ditador pretendia exilá-lo. Foi então, corria o ano de 1946, que para contrariar tal decisão um grupo de influentes amigos optou por colocá-lo como presidente do Benfica, lugar considerado intocável.

No final do seu mandato, que terá cumprido com militar estoicismo, um adepto benfiquista fez-lhe um pedido de aparência inócua. Prestes a ser pai, solicitava aprovação para baptizar o filho com o nome do presidente. A resposta não tardou. Mais um João, menos um João, nenhuma diferença fazia e assentiu sem hesitar. O que não esperava de todo era que o homem escolhesse o seu apelido como nome de baptismo e chamasse ao filho Tamagnini. De nome completo Tamagnini Manuel Gomes Batista ou, como ficou conhecido, Tamagnini Nené.

Foi assim, por uma sucessão de circunstâncias, que um dos ícones do Benfica ostentou o nome de um sportinguista ilustre. E esta história faz-me sempre sorrir. Não me perguntem porquê. Tenho um humor muito peculiar.

*Texto publicado no Jornal do Sporting


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7 comentários:
De VicTeixeira a 11 de Outubro de 2012 às 10:48
Boas,

Biografia

Foi Ministro do Interior, das Colónias e das Finanças da «República Nova», nos governos de Sidónio Pais e de João Canto e Castro, entre 12 de Dezembro de 1917 e 14 de Dezembro de 1918.
Foi Primeiro-ministro da I República, após o assassínio de Sidónio Pais, de 23 de Dezembro de 1918 a 27 de Janeiro de 1919.
Foi eleito presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica para os anos de 1946/1947, no terceiro período de vigência de Manuel da Conceição Afonso como presidente da direcção. Pela demissão deste, a 30 de Julho de 1946, passou para o cargo máximo do clube, tendo tomado posse no dia 25 de Janeiro de 1947. Manteria o cargo até o dia do seu abrupto falecimento. Tentou encontrar uma solução rápida para o clube voltar às vitórias futebolísticas, e, para que isso tornasse uma realidade, despediu Janus Biri, contratando primeiro Lippo Hertzca, depois Ted Smith. Não chegaria a presenciar em vida, contudo, os resultados desejados, mas esta decisão abriu caminho não só para quebrar o ciclo negativo do clube a nível nacional como também para o levar a conquistar o seu primeiro grande troféu do futebol europeu: a Taça Latina.

obg


De João Villalobos a 11 de Outubro de 2012 às 11:13
Obrigado. De facto de acordo com a biografia ele terá dado o seu melhor pelo Benfica. Como digo, o facto de Tamagnini Barbosa ter sido na realidade do Sporting, como aliás é apanágio da família, foi-me contado por um seu descendente. Aquilo que escrevo é o que me foi relatado, apenas. Abraço


De VicTeixeira a 11 de Outubro de 2012 às 14:50
boas,

O que acabas-te de fazer sem qual prova documental ou testemunha em primeira mão, foi:

- Colar o clube Benfica ao Regime de Salazar, curiosamente clube onde se pode provar que os Presidentes já eram eleitos ou contrário do Sporting.

- Denegriste a Pessoa, dizendo que ela se acobardou, fugindo a consequências politicas se albergou no clube rival do seu coração.

Pergunto. No Jornal do Sporting”, escreves notícias ou romances?????????????


De VicTeixeira a 11 de Outubro de 2012 às 15:10
Boas,

Por favor não publiques no blog ou se entenderes publica.

O rapaz da minha rua.

Um vizinho de João Villalobos , lembra-se deste rapaz que jogava à bola na sua rua com todo vestido há Benfica, dizia que queria ser o Eusébio, quando fosse grande, gritava muito pelo Benfica
Mas ninguém o levava a ver os jogos de futebol.

Um familiar próximo, levou ao futebol
Fê-lo sócio do Sporting, que hoje ainda é.

Assim se constroem mexericos e mais grave do que isso denegrir-se a imagem das pessoas


De Captomente a 11 de Outubro de 2012 às 12:00
ahahah. História deliciosa. Desconhecia por completo.

SL


De André Salgado a 11 de Outubro de 2012 às 12:24
Quando contamos uma estória do tempo da outra senhora, ensina a prudência que não tomemos por boa uma única fonte, que pode já ter juntados muitos pontos ao conto.

Alguns contributos para a estória em causa:

1. Ao contrário do que sucedia em outros clubes, os presidentes do Sport Lisboa e Benfica eram democraticamente eleitos pelos seus associados. Não eram "colocados" no lugar por um "grupo de amigos", uma patranha sem rigor histórico.
2. Quando se tornou presidente do Sport Lisboa e Benfica, João Tamagnini de Sousa Barbosa era já presidente da Assembleia Geral do clube, tendo ascendido à direcção, por hierarquia estatutária, em virtude da demissão do presidente Manuel da Conceição Afonso, sendo posteriormente confirmado em eleição, como era norma no clube.
3. No final do seu mandato não andou a brincar à distribuição de nomes. Aconteceu ter falecido. Foi por essa superior razão que deixou de ser presidente do Sport Lisboa e Benfica.
4. Tamagnini Manuel Gomes Batista, o popular Nené, nasceu cerca de um ano depois (20 de Novembro de 1949) do falecimento de João Tamagnini de Sousa Barbosa (15 de Dezembro de 1948). Ou se preferir, terá sido concebido pelos seus progenitores (salvo algum fenómeno do entroncamento) quase 3 meses depois do falecimento do presidente do SLB. É muito possível que tenham baptizado o seu filho em homenagem ao falecido senhor. Mas só com recurso ao sobrenatural poderiam ter pedido autorização para dar o seu nome, para um filho prestes a nascer, a uma pessoa entretanto já falecida há quase um ano.

Não acredite em tudo o que lhe contam, sem uma elementar verificação de factos históricos. E desconfie, desconfie sempre, quando um "sportinguista de gema" lhe conte uma velha "estória" sobre o Sport Lisboa e Benfica.


De Tobias Minus a 11 de Outubro de 2012 às 12:30
esta 'historieta' (publicada no jornal do vosso clube !?!) como se vê, prontamente adoptada como verdadeira, mas 'resguardando' a fonte familiar, é sem dúvida ...

digna duma boa gargalhada, e só isso!


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