21 Jul 12

1947, o ano mágico de Jesus Correia.

Meu pai nasceu dez anos antes, eu vinte e um anos depois, ainda hoje brincamos, esgrimindo sportinguismo; “sou do tempo dos cinco violinos” diz-me ele, “eu sou do tempo de Yazalde”, respondo e sorrimos, porque ele sabe todos os tempos do Sporting (meu avô Jacinto nasceu em 1902 e incutiu nos filhos um sportinguismo que tem netos, bisnetos e continua a ser transmitido).

Escolhi Jesus Correia, porque o Necas (era assim que os amigos o conheciam e assim o tratarei até ao final do “post”, sem o conhecer [sem o ter conhecido em vida] sinto que o conheço pelo seu imortal sportinguismo, desportivismo) é (foi) um de nós, mais que um atleta que nos representou, é um exemplo duma vida dedicada ao desporto, à família, à terra.

No dia 6 de Outubro de 1946, no Estádio das Salésias, o Mundo assistia ao nascimento da maior lenda colectiva do futebol português; Necas (22 anos), Vasques (20 anos), Travassos (20 anos), Albano (22 anos) e Peyroteo (28 anos), os cinco violinos jogavam juntos pela primeira vez. Aos 17 minutos de jogo, Necas voa entre as "torres de Belém" e, correspondendo a um maravilhoso cruzamento de Albano, põe Capela à procura da bola nas redes. Foi o primeiro de muitos golos dos famosos cinco.

Necas foi um grande atleta mas não foi nenhum Meszaros, um Peter, nem sequer um Carlos Gomes, apesar de ter sido guarda-redes num Sporting vs. Benfica em 17 de Novembro de 1946; o nosso guarda-redes Azevedo parte um braço e sai do campo, Necas, que marcara um golo fantástico, vai para a baliza, estava 1-0, decidia-se o campeonato de Lisboa, o Sporting com 10, o Benfica com 11 (na altura não existiam substituições) e o bom do Necas na baliza...

Conseguiu manter a baliza inviolável até ao intervalo mas já não regressaria (como guarda-redes) para a segunda parte; foi substituído no posto por Veríssimo e dez minutos depois (re)entraria, sob fortes aplausos, Azevedo, com o braço partido mas com uma dignidade, uma vontade de vencer, uma energia que não quebraria e não quebrou, o Sporting venceu por 3-1.

Azevedo passeado em ombros, num misto de dor e satisfação, e Necas eufórico com mais um título colectivo e um individual. Foi o melhor marcador desse campeonato regional de 1946.

No ano seguinte Necas conquistaria mais títulos, alguns pouco conhecidos, pela mão de Mário Moniz Pereira. Pois é, o nosso Necas foi campeão regional de Lisboa e campeão nacional (no Porto) na estafeta de 4x80 metros em atletismo corporativo, representando a equipa do Grémio dos Armazenistas de Mercearia. Necas, campeão de atletismo, campeão de futebol, campeão de hóquei em patins, um campeão... à Sporting.

O ano de 1947 foi mágico mas o de 1948 seria de ouro, Necas venceu todos os campeonatos de hóquei e de futebol, o Sporting conquistaria, definitivamente, a Taça de «O Século» mas Necas ainda tinha mais "ganas" e em 5 de Setembro desse ano o Sporting jogaria no Estádio Metropolitano com o Atlético de Madrid, seis para os leões, três para os colchoneros, com todos os golos do Sporting a serem marcados por... (adivinharam) Jesus Correia.

Mais que um ídolo, Necas é, para mim, um exemplo, um exemplo duma vida dedicada ao desporto (futebol no Sporting e hóquei em patins no Paço d'Arcos, internacional em ambos) um exemplo duma vida dedicada à família, um exemplo duma vida alicerçada numa terra (Paço d'Arcos), um exemplo não de dois amores (como ficou conhecido) mas dum grande amor – o Sporting – com toda a abrangência que esta poderosa palavra possui.


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4 comentários:
De Fernando Albuquerque a 21 de Julho de 2012 às 12:35
Conheci o Jesus Correia pessoalmente porque ele trabalhava na Avª da Liberdade no Grémio dos Armazenistas de Mercearias e o meu patrão o Sr. João Santos, pai do corredor de automóveis Basilio dos Santos era o Presidente desse Grémio, onde me deslocava muitas vezes. Como pessoa era duma simplicidade impressionante, pois com a categoria que ele tinha no hoquei em patins, várias vezes campeão do mundo e no futebol, fazendo parte dos cinco violinos, era uma pessoa impecável, que ficou na minha memória.

Por vezes penso qual seria o valor deste e outros jogadores dessa época, que tinham de trabalhar para sustento das suas familias.pois o que ganhavam no futebol era irrisório.

É interessante que dos cinco violinos só não me recordo o que fazia o Albano, pois os outros Travassos e Vasques eram sócios. Trabalhei numa empresa que era do filho do Presidente Sidónio Pais onde eles se abasteciam de torneiras para tirar cervejas e o meu vizinho Peiroteu que morava na rua
Francisco Sanchez na Praça do Chile, perto de mim, tinha uma loja de desporto junto do tribunal da Boa-hora . Depois teve aquela fatalidade nas pernas e tudo acabou.

O mundo é pequeno e eu tive sempre sorte em conviver com jogadores do meu clube.



Saudações leoninas. Fernando Albuquerque


De Pedro Oliveira a 21 de Julho de 2012 às 18:01
Excelentes memórias e recordações que nos traz, Fernando.
Não podemos, de facto, comparar homens e atletas como Jesus Correia com algumas estrelas birrentas que hoje pisam os relvados.
Abraço e saudações leoninas.


De Pedro Correia a 21 de Julho de 2012 às 20:48
Muito bem, Pedro. O Jesus Correia era um símbolo do mais autêntico sportinguismo. Bom de bola, jogador de selecção, integrando a melhor linha avançada de que há memória no futebol português, era igualmente um grande atleta noutras modalidades. Internacional de futebol, internacional (e campeão mundial) de hóquei. Um exemplo ímpar de ecletismo. Como o nosso clube é.


De Pedro Oliveira a 26 de Julho de 2012 às 21:31
«Internacional de futebol, internacional (e campeão mundial) de hóquei. Um exemplo ímpar de ecletismo. Como o nosso clube é.»

Eu não diria melhor.
O primeiro atleta que vi, ao vivo, com a nossa camisola foi Aniceto Simões, um atleta do atletismo (isto soa mesmo bem, eh, eh, eh) não era um atleta do outro mundo mas foi a primeira vitória que vi (ao vivo) do nosso clube.
Mais tarde seria bafejado com um dos grandes momentos da nossa História; primeiro jogo em Alvalade, uma viagem de Renault 5, desde as berças eu e dois benfiquistas (uma e um)... ia (íamos) a Lisboa ver o Sporting de Manuel José ser esmagado pelo Benfica de Mortimore; se empatássemos não seria mau.
O meu primeiro jogo no José de Alvalade, "estive lá" (e tenho o bilhete, não sei é onde) o jogo dos 7 - 1; grande Manel... grande Sporting.
Quanto a Jesus Correia é fácil falarmos dos títulos como jogador mas gostaria de lembrar que em, apenas, dois anos [1958 a 1960] como seleccionador nacional o "Necas" foi por duas vezes campeão europeu e venceu dois campeonatos luso-brasileiros.
Numa altura em que estamos focados nos Jogos Olímpicos não será despropositado falar do Prémio Fair-Play atribuído a António Jesus Correia em 1983, distinção atribuída pelo Comité Internacional Olímpico, reconhecendo um percurso ímpar como futebolista e hoquista, sempre com uma postura irrepreensível dentro e fora do campo.


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