17 Jul 12

A personalidade é algo que se vai adquirindo ao longo do tempo, está em permanente construção.

Gosto de homens (salvo seja) como Paulo Bento não por serem perfeitos, serem génios, nunca errarem, mas sim porque cometem erros, como todos nós e aprendem com eles.

Vou dar dois exemplos do carácter de Paulo em que o Sporting esteve envolvido.

O primeiro, foi no dia 18 de Maio de 1996, um final da Taça de Portugal, dum lado o Benfica de Paulo Bento, do outro o Sporting de Carlos Xavier, é o célebre, tristemente, célebre, jogo em que um adepto do Sporting é assassinado por um "very-light". Paulo Bento ao ser informado da morte de Rui Mendes, um pai de família com 36 anos, recusa-se comemorar a conquista da Taça e chocado com o acontecido não mais vestiria, oficialmente, a camisola cor de papoila saltitante.

O segundo, acontece no dia 27 de Outubro de 2001, o Sporting está em Paços de Ferreira para jogar com a equipa local, horas antes do desafio começar, Paulo é informado que o pai, o Sr. Manuel, morrera. Procura Bölöni, comunica-lhe o que aconteceu e diz-lhe que está disponível para ser titular como previsto. László e Paulo olharam-se em silêncio, é provável que o treinador romeno tenha recuado até aos 15 anos de idade, até ao dia em que ele (László) vira o próprio pai morrer na bancada. Paulo é titular, o Sporting vence por seis a zero e o grande momento do jogo pertence a Paulo Bento que recebe uma bola a meio campo, corre para a área e de pé esquerdo efectua um cruzamento perfeito para Sá Pinto marcar, é o segundo golo. Todos os companheiros o vão abraçar e Paulo comemora o golo com um imenso sorriso, olhos postos no céu e braços bem levantados.


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5 comentários:
De Rui Gomes a 17 de Julho de 2012 às 11:49
Sempre respeitei o profissionalismo de Paulo Bento, tanto como jogador como treinador. A sua conduta na final do Euro 2012, sob intensa pressão, foi admirável. Isto dito, a sua personalidade também tem os seus quês e porquês. Apenas um exemplo: foi apenas pela sua birra que a um certo ponto entendeu deixar de convocar Liedson, quanto este já tinha sido de grande valor para a selecção. Na fase final, um jogador da sua experiência e magia para fabricar golos do nada, poderia ter sito muito útil. No entanto, Paulo Bento entendeu levar um miúdo que ainda está muito loge de ter a «pedalada» necessária para estas andanças. Terá sido para agradar a alguém ?...Não sei, mas pensei muito no Liedson naqueles momentgos que nós tanto precisávamos de um golito. Isto tem tudo a haver com a sua personalidade.


De Pedro Oliveira a 17 de Julho de 2012 às 19:14
Caro Rui,

O "post" é sobre personalidade, sobre carácter, sobre uma certa forma de estar no futebol e na vida.
Bem sei que é fácil caricaturarmos Paulo Bento, pela forma como se expressa, pelo corte de cabelo e assim, mas Paulo não é uma caricatura é uma pessoa, um homem.
Um dos defeitos que apontam a Paulo, é a teimosia, "o gajo é teimoso como uma mula", dizem... os factos contrariam quem assim pensa, dois nomes: Varela e Carlos Martins.
Estamos de acordo em relação a Liedson, poderia ter sido o nosso "Milla"; o mais provável é que não tivesse saído do banco como Quaresma e tivesse perdido a oportunidade de conquistar a "Libertadores" e de a comemorar no campo com os colegas, se isso tivesse acontecido estaríamos agora a choramingar e a apedrejar Paulo Bento pela sacanice que fizera a Liedson.
Liedson é um jogador de 4x4x2 e como sabemos a seleção joga num 4x3x3, seria difícil encaixá-lo mas sublinho eu (como selecionador) teria levado Liedson (ou Hugo Vieira ou João Tomás ou Nuno Gomes ou Edinho; qualquer um deles é melhor, muito melhor que o potencial melhor avançado do mundo e arredores o tal Nélson qualquer coisa).
Julgo que a não convocação de Liedson (ou um dos outros) e a convocação do tal Nélson foi-lhe imposta, pergunta-me:
"Terá sido para agradar a alguém ?"
Sinceramente, acho que sim, não duma forma ríspida, tipo ordem, mas duma forma suave, sibilina, como a serpente que tenta Eva, blá, blá, blá, eles são seis milhões, blá, blá, blá, eles controlam a imprensa, blá, blá, blá, eles controlam as televisões... e Paulo terá cedido, pelo cansaço porque se calhar até acreditou, sei lá o gajo pode tropeçar na bola e marcar um golo...
Também pensei em Liedson no Europeu, fiquei acordado de madrugada para o ver vencer a "Libertadores" e chorei... tenho pena, angustia-me que um jogador como o "Levezinho" não tenha conseguido um campeonato no Sporting (roubaram-lho com a mão de Ronny) ou uma Taça da Liga (roubaram-no o "Ferrari de Setúbal" e o Lucílio Batista) ou um título europeu.
A personalidade de Paulo Bento não é do tipo influenciável mas neste particular, Rui, estamos de acordo, deixou-se influenciar, provavelmente, de forma inconsciente; tenho quease a certeza que um dia, Paulo, dirá:
- Enganei-me... enganaram-me.
(de qualquer modo, Liedson, também não foi convocado por Queiroz/Agostinho Silva para o patético 4-4 com o Chipre, nem para a merecida derrota com a Noruega; Paulo nunca o convocou, o Queiroz qualificou-se à conta dele e desprezou-o a seguir, pode parecer a mesma coisa... mas é diferente)


De Rui Gomes a 17 de Julho de 2012 às 21:02
Caro Pedro, apreciei imenso a sua resposta porque é assim que eu gosto de «discutir» futebol. Não sabe da minha vida e, para o caso, até não importa, mas os únicos motivos - que até estão interligados - que me levaram a colaborar com este blogue, foram o Sporting e o futebol, duas grandes paixões minhas. Realísticamente não tenho vida para isto, mas como em tudo que assumo na vida, acredito que o merece ser feito, merece ser bem feito, caso contrário - mesmo em termos de um passatempo - perde toda a qualidade. Por vezes, sinto alguma dificuldade neste espaço pela ausência daquilo que eu exijo a mim próprio e sou uma pessoa muito determinada, sem feitio nem tolerância para lidar com egos inquietos. Digo-lhe isto para compreender melhor de onde é que venho. Quanto à temática do momento, percebi bem o intuito do post, mas sem querer passar por um qualquer sabichão, lidei tantos anos com treinadores e jogadores e aprendi, pela experiência, que tudo aquilo que se afigura no relvado é o resultado do carácter, personalidade e capacidade intelectual de quem comanda o colectivo. Treinadores são uma «raça» muito especial, especialmente aqueles que foram jogadores. Acontece que com tantos dos meus conhecimentos no futebol, nunca privei com Paulo Bento, por isso tento reservar algum juízo sobre ele. Concordo inteiramente, aliás, sempre pensei isso, que ele leva o miúdo para aprazer ou, se desejar, sossegar, a comunidade benfiquista, pela pressão, pelo potencial para ainda mais polémica mediática. Porventura, terá sido uma decisão astuta. Quanto ao Liedson, a minha ideia era de tirar proveito da sua experiência, da sua ratice e fabricar um golo quando menos se espera e mais se precisa. Não para jogar num 4x3x3, mas sim em fases específicas de um jogo, onde nós quase nos posicionamos com um 4x2x4 ou algo do género. Apesar de tudo, acredito que se ele fosse nascido português teria sido convocado. Mera opinião. De resto, gosto do Paulo Bento, há muitos anos que o respeito como profissional, não fui das suas maiores fãs enquanto no Sporting, mas compreendi as circunstâncias em que se encontrou. Por fim, nunca hesite em me contrariar que eu adoro o debate. Não para convencer, não para ter razão mas pela essência da troca e pareceres. Entendo que é salutar. Cumprimentos.


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 15:53
Muito bem, Pedro. É em momentos assim que se avalia o carácter de alguém. O Paulo Bento tem passado com distinção - nesses, os mais emblemáticos, tal como noutros.


De Pedro Oliveira a 17 de Julho de 2012 às 19:24
Estava a escrever o "post" e a pensar:
- O que faria eu?
Acabei de ganhar uma Taça de Portugal no Jamor contra o meu maior rival, tenho vinte e poucos anos, vejo toda a gente à minha volta feliz e a comemorar e eu tenho a presença de espírito para pensar: "ganhar assim não, a vitória não justifica o assassinato duma pessoa... nunca mais visto esta camisola"
Penso nisso e tenho quase a certeza que eu não teria sido, suficientemente, Homem para fazer o mesmo; tipo ao contrário, eu vestido de verde e branco a não comemorar uma vitória do Sporting sobre o Benfica e a decidir abandonar o clube (isto é, apenas, um exercício o Sporting na mesma circunstância nunca se comportaria como o clube da freguesia de Carnide se comportou).
Quanto à questão da morte do pai, não sei, felizmente, o meu está vivo e com saúde mas, provavelmente, faria o mesmo que Paulo fez, encontraria forças para jogar... como homenagem, dando tudo o que tinha.


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