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És a nossa Fé!

Os nossos ídolos (9) : José Carlos

Nunca fui dado a idolatrias e a única pessoa que mais me aproximei de venerar foi um homem que, não sendo nem meu pai nem avô, dispensou-me todo o amor e carinho que um filho ou um neto necessita em tenra idade e, com o passar dos anos, o benefício da sua sabedoria e dos seus valores que me guiaram ao longo da vida. Muito por este profundo sentimento, sempre lhe perdoei a sua insistência em me desviar para Belém aos domingos à tarde, quando o meu maior interesse se situava na freguesia do Lumiar. Não escolhi ser sportinguista. Nasci e quando tive noção suficiente para identificar o ABC apercebi-me que o Sporting já estava bem enraizado no meu subconsciente. Será justo esclarecer que a minha mãe, pelo seu eterno fervor pelo verde-e-branco, entendeu com toda a naturalidade - e sensatez - que eu, como bom filho, e o homem que ela pretendia que eu me tornasse, teria de ser conduzido pelo bom caminho logo de infância. Agradeço-lhe e tento honrar a sua memória com a minha devoção ao Clube do seu (nosso) coração.

Pela essência humana, era inevitável que viesse a ser sensível a certas pessoas do meio sociocultural universal, pelo seu padrão de vida, pelos seus feitos de extraordinário alcance  e, em casos pontuais, também pela sua associação a acontecimentos invulgares ou excepcionais. Desde muito jovem que mantenho duas datas estampadas no meu íntimo, ambas relacionadas com eventos históricos, mas de carácter distinto, separados no tempo e no espaço pelo oceano Atlântico. São o tipo de acontecimentos que nos ocorrem subitamente com vívida exactidão de onde e com quem estávamos e o que nos ocupava no exacto momento em que sucederam, que nos permitem reviver os sentimentos que invadiram o nosso ente naqueles longínquos instantes e que, de algum modo, influenciaram efectivamente a nossa forma de estar e pensar. A primeira, pelo pior dos motivos, é o dia 22 de Novembro de 1963, o infame assassinato de John F. Kennedy em Dallas. A segunda, porque vincou a minha consciência sportinguista, é o dia 15 de Maio de 1964, quando o «cantinho do Morais» permitiu ao Sporting a conquista da Taça Europeia dos Vencedoras das Taças, derrotando, com esse histórico golo solitário, o MTK Budapest, na finalíssima da prova. Encontrava-me em Portugal na altura, em plena estadia estudantil, e, naquele dia, no Bombarral, a terra do meu berço. Como era o hábito de então em ocasiões especiais - leia-se, jogos de futebol - pelo convívio e ainda porque naqueles tempos as televisões nos lares eram um luxo de consumo limitado, a rapaziada reunia-se na sede do Sport Clube Escolar Bombarralense.

Estava eu sentado na primeira fila de cadeiras na sala principal do clube, ladeado pelos meus mais fieis amigos de infância, uns sportinguistas, outros nem por isso, mas todos a torcer pelo Sporting, quando, aos 20 minutos de jogo, João Morais manda aquela bola mágica para o segundo poste, batendo o guarda-redes húngaro. Euforia louca, saltos e abraços sem fim, gritos de «vivó Sporting» e algumas lágrimas de emoção desgarrada. Um golo que não foi só dávida de deuses e que nos sustentou pelo sofrimento dos restantes 70 minutos, especialmente com as duas bolas aos ferros da baliza de Carvalho, a última, mesmo ao fechar do pano. Pelo apito final do árbitro belga e em simultâneo com as celebrações dos nossos heróis em pleno relvado em Antuérpia, festejos ao rubro que se arrastaram do clube para a rua e daí para o largo da Igreja do São Salvador do Mundo, com a vizinhança apavorada pelo pandemónio que abalou a sua tranquilidade. Pela euforia e, de certo modo, ilusão do momento, não tínhamos dúvidas de que o estrondo fez-se ouvir por Portugal inteiro. Com a inevitável criatividade de juventude, decidimos celebrar a histórica vitória com pompa e circunstância e, para o efeito, fomos ao Café Lila na baixa - o único estabelecimento da vila abastecido com os indispensáveis acepipes próprios da ocasião - comprar uns Olás e Rajás, outro luxo dos tempos. Ao entrar em casa, num silêncio ruidoso - já não me recordo da hora tardia - o «cantinho do Morais» tornou a brilhar, salvando-me de um muito severo reprimendo do meu ferrenho benfiquista «não para brincadeiras» tio.

Não obstante estar apenas na sua segunda época no Sporting, um dos jogadores que mais me impressionou foi José Carlos da Silva José - simplesmente conhecido por José Carlos - natural de Vila Franca de Xira. Estreou-se com 19 anos ao serviço da Cuf, para pouco depois se vincular ao Sporting, onde permaneceria doze anos, até 1974. Naquela década era impossível falar do Sporting sem evocar José Carlos - a bem dizer, ele e o Hilário - um brilhante e inseparável duo. Actuava na posição então denominada  «quarto defesa», complementando os tradicionais três defesas em linha e os médios. Um jogador de enorme combatividade e resistência, notório pelas suas marcações individuais e pelo rigor táctico; o sonho de qualquer treinador. Tanto assim, que mereceu reconhecimento internacional pela sua brilhante marcação ao lendário Bobby Charlton que desbravou o caminho para a vitória no célebre segundo jogo em Alvalade (5-0) frente ao Manchester United também de George Best e Dennis Law, dos quartos-de-final da prova de 1964. Durante a sua carreira de «leão ao peito», realizou 348 jogos oficiais, conquistou três Campeonatos Nacionais, quatro Taças de Portugal, duas Taças de Honra (AFL), a Taça Intertoto em 1968, duas Taças Ibéricas e, claro, a Taça das Taças. Em 1971 foi distinguido com o Prémio Stromp. Em 1974, saiu para o Braga onde deu termo à sua carreira de futebolista e iniciou a de treinador, contribuindo para o regresso à 1.ª Divisão do clube bracarense. Dedicou-se eventualmente à vida de empresário, mas nunca distante do relvado. Orientou diversos emblemas do Norte do País e em 1997 voltou a ser Campeão Nacional como técnico dos Sandinenses da 3.ª Divisão.

Durante o seu extraordinário percurso, tornou-se igualmente num dos mais valorosos elementos da Selecção Nacional - com 36 internacionalizações em dez anos - um dos ilustres «Magriços» que constituiram a equipa das Quinas de 1966 que conquistou o histórico 3.º lugar no Campeonato do Mundo de Inglaterra. Foi totalista na fase de apuramento, jogou a inesquecível meia-final contra os britânicos e, por fim, o jogo da disputa pelos 3.º e 4.º lugares.

                                                                                    

Um profissional excepcional, um grande líder, um homem de carácter e um exemplo para gerações,  que fica na história do Sporting Clube de Portugal como um dos jogadores que mais vezes envergou a sua camisola e como um dos mais emblemáticos capitães de sempre. Não ao acaso, herdou a braçadeira em 1965 de um outro grande capitão - Fernando Mendes - e tinha o destino que viesse a ser sucedido pelo lendário Vítor Damas. Este era o Sporting da minha juventude e as saudades não são poucas!

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