16 Jul 12

Nunca fui dado a idolatrias e a única pessoa que mais me aproximei de venerar foi um homem que, não sendo nem meu pai nem avô, dispensou-me todo o amor e carinho que um filho ou um neto necessita em tenra idade e, com o passar dos anos, o benefício da sua sabedoria e dos seus valores que me guiaram ao longo da vida. Muito por este profundo sentimento, sempre lhe perdoei a sua insistência em me desviar para Belém aos domingos à tarde, quando o meu maior interesse se situava na freguesia do Lumiar. Não escolhi ser sportinguista. Nasci e quando tive noção suficiente para identificar o ABC apercebi-me que o Sporting já estava bem enraizado no meu subconsciente. Será justo esclarecer que a minha mãe, pelo seu eterno fervor pelo verde-e-branco, entendeu com toda a naturalidade - e sensatez - que eu, como bom filho, e o homem que ela pretendia que eu me tornasse, teria de ser conduzido pelo bom caminho logo de infância. Agradeço-lhe e tento honrar a sua memória com a minha devoção ao Clube do seu (nosso) coração.

Pela essência humana, era inevitável que viesse a ser sensível a certas pessoas do meio sociocultural universal, pelo seu padrão de vida, pelos seus feitos de extraordinário alcance  e, em casos pontuais, também pela sua associação a acontecimentos invulgares ou excepcionais. Desde muito jovem que mantenho duas datas estampadas no meu íntimo, ambas relacionadas com eventos históricos, mas de carácter distinto, separados no tempo e no espaço pelo oceano Atlântico. São o tipo de acontecimentos que nos ocorrem subitamente com vívida exactidão de onde e com quem estávamos e o que nos ocupava no exacto momento em que sucederam, que nos permitem reviver os sentimentos que invadiram o nosso ente naqueles longínquos instantes e que, de algum modo, influenciaram efectivamente a nossa forma de estar e pensar. A primeira, pelo pior dos motivos, é o dia 22 de Novembro de 1963, o infame assassinato de John F. Kennedy em Dallas. A segunda, porque vincou a minha consciência sportinguista, é o dia 15 de Maio de 1964, quando o «cantinho do Morais» permitiu ao Sporting a conquista da Taça Europeia dos Vencedoras das Taças, derrotando, com esse histórico golo solitário, o MTK Budapest, na finalíssima da prova. Encontrava-me em Portugal na altura, em plena estadia estudantil, e, naquele dia, no Bombarral, a terra do meu berço. Como era o hábito de então em ocasiões especiais - leia-se, jogos de futebol - pelo convívio e ainda porque naqueles tempos as televisões nos lares eram um luxo de consumo limitado, a rapaziada reunia-se na sede do Sport Clube Escolar Bombarralense.

Estava eu sentado na primeira fila de cadeiras na sala principal do clube, ladeado pelos meus mais fieis amigos de infância, uns sportinguistas, outros nem por isso, mas todos a torcer pelo Sporting, quando, aos 20 minutos de jogo, João Morais manda aquela bola mágica para o segundo poste, batendo o guarda-redes húngaro. Euforia louca, saltos e abraços sem fim, gritos de «vivó Sporting» e algumas lágrimas de emoção desgarrada. Um golo que não foi só dávida de deuses e que nos sustentou pelo sofrimento dos restantes 70 minutos, especialmente com as duas bolas aos ferros da baliza de Carvalho, a última, mesmo ao fechar do pano. Pelo apito final do árbitro belga e em simultâneo com as celebrações dos nossos heróis em pleno relvado em Antuérpia, festejos ao rubro que se arrastaram do clube para a rua e daí para o largo da Igreja do São Salvador do Mundo, com a vizinhança apavorada pelo pandemónio que abalou a sua tranquilidade. Pela euforia e, de certo modo, ilusão do momento, não tínhamos dúvidas de que o estrondo fez-se ouvir por Portugal inteiro. Com a inevitável criatividade de juventude, decidimos celebrar a histórica vitória com pompa e circunstância e, para o efeito, fomos ao Café Lila na baixa - o único estabelecimento da vila abastecido com os indispensáveis acepipes próprios da ocasião - comprar uns Olás e Rajás, outro luxo dos tempos. Ao entrar em casa, num silêncio ruidoso - já não me recordo da hora tardia - o «cantinho do Morais» tornou a brilhar, salvando-me de um muito severo reprimendo do meu ferrenho benfiquista «não para brincadeiras» tio.

Não obstante estar apenas na sua segunda época no Sporting, um dos jogadores que mais me impressionou foi José Carlos da Silva José - simplesmente conhecido por José Carlos - natural de Vila Franca de Xira. Estreou-se com 19 anos ao serviço da Cuf, para pouco depois se vincular ao Sporting, onde permaneceria doze anos, até 1974. Naquela década era impossível falar do Sporting sem evocar José Carlos - a bem dizer, ele e o Hilário - um brilhante e inseparável duo. Actuava na posição então denominada  «quarto defesa», complementando os tradicionais três defesas em linha e os médios. Um jogador de enorme combatividade e resistência, notório pelas suas marcações individuais e pelo rigor táctico; o sonho de qualquer treinador. Tanto assim, que mereceu reconhecimento internacional pela sua brilhante marcação ao lendário Bobby Charlton que desbravou o caminho para a vitória no célebre segundo jogo em Alvalade (5-0) frente ao Manchester United também de George Best e Dennis Law, dos quartos-de-final da prova de 1964. Durante a sua carreira de «leão ao peito», realizou 348 jogos oficiais, conquistou três Campeonatos Nacionais, quatro Taças de Portugal, duas Taças de Honra (AFL), a Taça Intertoto em 1968, duas Taças Ibéricas e, claro, a Taça das Taças. Em 1971 foi distinguido com o Prémio Stromp. Em 1974, saiu para o Braga onde deu termo à sua carreira de futebolista e iniciou a de treinador, contribuindo para o regresso à 1.ª Divisão do clube bracarense. Dedicou-se eventualmente à vida de empresário, mas nunca distante do relvado. Orientou diversos emblemas do Norte do País e em 1997 voltou a ser Campeão Nacional como técnico dos Sandinenses da 3.ª Divisão.

Durante o seu extraordinário percurso, tornou-se igualmente num dos mais valorosos elementos da Selecção Nacional - com 36 internacionalizações em dez anos - um dos ilustres «Magriços» que constituiram a equipa das Quinas de 1966 que conquistou o histórico 3.º lugar no Campeonato do Mundo de Inglaterra. Foi totalista na fase de apuramento, jogou a inesquecível meia-final contra os britânicos e, por fim, o jogo da disputa pelos 3.º e 4.º lugares.

                                                                                    

Um profissional excepcional, um grande líder, um homem de carácter e um exemplo para gerações,  que fica na história do Sporting Clube de Portugal como um dos jogadores que mais vezes envergou a sua camisola e como um dos mais emblemáticos capitães de sempre. Não ao acaso, herdou a braçadeira em 1965 de um outro grande capitão - Fernando Mendes - e tinha o destino que viesse a ser sucedido pelo lendário Vítor Damas. Este era o Sporting da minha juventude e as saudades não são poucas!


comentar
11 comentários:
De Fernando Albuquerque a 16 de Julho de 2012 às 09:08
Prezado Rui Gomes

Parabéns pela sua escolha. Tenho saudades dum capitão do SCP como era o Zé Carlos. Incutia respeito dentro do campo , pois ali na sua zona quem mandava era ele. Foi dos melhores jogadores que passaram pelo SCP . Sou um grande admirador dele, pois a sua postura em campo era impressionante. Desde que deixou de jogar nunca mais vi no SCP nenhum jogador no seu lugar igual ou parecido, pois a sua personalidade e qualidade não é muito comum nos tempos que decorrem.

Sobre a sua vida desportiva no SCP o Rui Gomes fez uma descrição perfeita dum jogador que merece todo o nosso reconhecimento por tudo o que fez no nosso clube.

Cumprimentos Fernando Albuquerque SL


De Rui Gomes a 16 de Julho de 2012 às 11:45
Caro Fernando Albuquerque,

Obrigado pelas suas simpáticas palavras. Nem hesitei a escolher o José Carlos. Na minha juventude
ele era de facto um exemplo à «leão».


De A. Santos a 16 de Julho de 2012 às 13:10
Excelente post. Estes testemunhos vividos na 1ª pessoa são fantásticos, e valorizam enormemente este blog. Parabens caro Rui Gomes.

Saudações Leoninas


De Rui Gomes a 16 de Julho de 2012 às 14:18
Obrigado caro A. Santos. Aprecio a gentileza das suas palavras. Escrevi do coração, o que facilitou imenso a tarefa. Para mim, foi um período fabuloso da vida, com o Sporting no centro das atenções. Fui privilegiado por ter condições para acompanhar «in loco» a nossa equipa daquela década, que tanto me marcou. Cumprimentos.


De Pedro Correia a 16 de Julho de 2012 às 13:52
Excelente evocação de um histórico capitão do Sporting, Rui. Ainda tive o privilégio de ver jogar o José Carlos, exemplo de correcção e alma leonina. E um exemplo - como bem sublinha - não só para os sportinguistas mas para todos os adeptos do desporto em Portugal, pois durante largos anos integrou a selecção nacional numa das melhores fases de sempre.


De Rui Gomes a 16 de Julho de 2012 às 14:31
Obrigado Pedro. Como já disse ao nosso leitor A. Santos, escrevi do coração e até me emocionei um pouco durante o trabalho. Para ser justo, poderia ter escolhido diversos daquela equipa de 64, mas na minha juventude, o centro das atenções eram sempre o José Carlos e o Hilário, para não esquecer o Osvaldo Silva, outro enorme «leão». Com 11 anos de idade e por aí fora, o José Carlos, pela sua presença em campo, pela sua conduta, representava tudo aquilo que desejava ser. Nunca traiu essa minha opinião dele. Quase que lhe telefonei, mas fica para outra ocasião e prepararei um outro pequeno texto sobre isso. Quanto ao Hilário, outro histórico «leão», indiscutívelmente. Tive ocasião de privar com ele em diversas ocasiões, em Alvalade e na Academia. Decepcionou-me bastante, como homem, mas não altera de modo algum o que representa no Sporting. Outro que também me marcou imenso e que merecia destaque, é o Alexandre Baptista.Ab


De Pedro Correia a 16 de Julho de 2012 às 15:52
Tenho a certeza de que o grande capitão José Carlos gostará de ler este texto, Rui.


De Rui Gomes a 16 de Julho de 2012 às 16:53
Não é difícil de lhe fazer chegar «às mãos» Pedro, pelos meus contactos.


De Marco Silva a 16 de Julho de 2012 às 15:36
Emocionante. Revi a minha adolescência em muitos dos acontecimentos lembrados, aliás, muito expressivos e bem escritos.
José Carlos foi também um dos meus ídolos que com Alexandre Batista, (uma grande figura do Sporting muito esquecida ou ignorada) fizerem um dupla de centrais inesquecível.
A lamentar a forma como a comunicação social da altura "maltratou" José Carlos a quem culparam injustamente da derrota com a Inglaterra em 66.
Obrigado pelas recordações que despertou


De Rui Gomes a 16 de Julho de 2012 às 16:51
Dava satisfaCaro Marco Silva, obrigado pelas suas palavras. Foi, de facto, um tempo muito saudável para nós sportinguistas e, especialmente, para os mais jovens, como eu era então, que viam os nossos atletas quase como uns icones. Sem o mínimo de exagero, era com muito orgulho que nós rapaziada nova e atrevida, andava pelas ruas de «leão ao peito». E dizia a minha mãe, «diz lá ao teu padrinho (o tal homem que conduziu na vida) que já chega de tanto Belenenses. Ele que te leve a Alvalade». E a verdade é que de vez em quando, ele satisfazia esse meu prazer. Um injusto tratamento dado ao José Carlos então, é assente na mesma premissa que impulsiona a comunicação social nos tempos actuais. Muito tendeciosa e injusta. Naquela infeliz meia-final ele não conseguiu dar a mesma cobertura a Bobby Charlton que tinha feito em Alvalade, mas existiam outros oponentes tão perigosos e a missão também não só do José Carlos.
Apesar da derrota, eu até penso que Portugal esteve muito bem e que merecia outro resultado.
Cumprimentos.


De Rui Gomes a 16 de Julho de 2012 às 16:59
P.S. Desculpe alguns lapsos ortográficos. Estou no escritório e esqueci-me dos óculos em casa. Situação algo caricata. Cumprimentos.


Comentar post

Autores
Pesquisar
 
Posts recentes

A voz do leitor

264 visualizações por hor...

A primeira de muitas....

Bem feito de Sporting

Mercado

A minha costela Jota Jota

Prognósticos antes do jog...

No pasarán!

Balakov

Dez contra onze

Facebook
És a Nossa Fé no Facebook
Twitter
És a Nossa Fé no Twitter
Arquivo

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Tags

sporting

comentários

memória

selecção

leoas

bruno de carvalho

prognósticos

jorge jesus

balanço

slb

há um ano

vitórias

campeonato

jogadores

benfica

eleições

rescaldo

arbitragem

mundial 2014

taça de portugal

nós

golos

ler os outros

liga europa

godinho lopes

futebol

árbitros

clássicos

euro 2016

comentadores

cristiano ronaldo

scp

formação

humor

análise

crise

chavões

liga dos campeões

derrotas

william carvalho

todas as tags

Mais comentados
158 comentários
155 comentários
152 comentários
142 comentários
138 comentários
136 comentários
132 comentários
Ligações
Créditos
Layout: SAPO/Pedro Neves
Fotografias de cabeçalho: Flickr/blvesboy e Flickr/André
blogs SAPO
subscrever feeds