17 Jul 12

 

Na passada quinta-feira, durante a inauguração do Museu Nacional do Desporto - um sonho tornado realidade 27 anos depois de a sua criação ter sido prevista por diploma - Mário Moniz Pereira ficou a saber que uma das alas da nova instituição, situada no Palácio Foz, em Lisboa, foi baptizada com o seu nome. "Isso significa que devo ter feito qualquer coisa nestes anos", limitou-se a reagir, com a modéstia que o caracteriza, o maior formador de campeões do desporto português, em declarações recolhidas pelo jornal A Bola. Uma atitude digna do grande homem que sempre foi.

Desportista nato, praticante das mais diversas modalidades (atletismo, andebol, voleibol, basquetebol, futebol, ténis de mesa e hóquei em patins), campeão nacional de vólei e recordista nacional do triplo salto, o actual sócio número 2 do Sporting Clube de Portugal começou desde cedo a treinar atletas: era esta a sua maior vocação e foi nisto que mais se distinguiu.

Enfrentando todas as adversidades, lutando contra todos os obstáculos, ultrapassando a proverbial tendência muito portuguesa de deixar as coisas para amanhã e jamais voltar a pensar nelas, conseguiu, após décadas de esforço, pôr o País inteiro a correr. Ele dava o exemplo, fizesse chuva ou fizesse sol.

 

 

Eu vivi essa época e sei do que falo: graças a Moniz Pereira e aos campeões que ele treinou, o atletismo tornou-se uma paixão nacional. Porque, naqueles anos 70 e 80, só nas pistas e nos trilhos o desporto português teve as suas horas de glória. Começando em Fevereiro de 1977 com a vitória na Taça dos Campeões Europeus de corta-mato - proeza colectiva da equipa do Sporting que viria a repetir-se sete vezes nos dez anos seguintes - e culminando naquele instante irrepetível que foi a entrada de Carlos Lopes, com a sua passada larga e segura, no estádio de Los Angeles, estabelecendo novo recorde olímpico da maratona e conquistando a primeira medalha de ouro portuguesa nuns Jogos Olímpicos - proeza antecipada na medalha de prata que obtivera em 1976, na final dos 10 mil metros, nas Olimpíadas de Montreal, e que poderia ter ocorrido logo em 1980, se Portugal não tivesse aderido nesse ano ao boicote ocidental aos Jogos Olímpicos de Moscovo.

 

No momento em que a bandeira portuguesa subia ao mastro e se escutavam os acordes do hino nacional em Los Angeles, o professor Moniz Pereira via coroados 39 anos de trabalho incansável.

Em ocasiões como essa ou no mês anterior, quando Fernando Mamede bateu o recorde mundial dos 10 mil metros, em Estocolmo, o Senhor Atletismo - como também é conhecido, a justo título - demonstrava a sua verdadeira estatura de campeão não só do desporto mas também da vida: associava-se com júbilo às celebrações mas nunca reivindicou louros especiais como treinador. Como se aquela fosse uma tarefa ao alcance de qualquer um. Que diferença em relação a certos técnicos no mundo do futebol, que mesmo sem vencerem nada falam de forma petulante e empertigada, como se não fossem a nulidade que realmente são...

 

 

Aos 91 anos, mantendo incólume o sportinguismo de sempre, continua a dar-nos lições. Diz-nos, por exemplo, que não devemos odiar os adeptos de outros emblemas. E gaba-se de ter amigos de todas as filiações clubísticas.

Perguntem-lhe do que mais se orgulha. Ele responder-vos-á que foi de ter conseguido, através do seu exemplo, que toda uma geração de portugueses calçasse sapatilhas e fosse correr para as ruas e estradas do País. Apenas isto. Que é muito. Como na letra daquele fado tão conhecido, composto por este homem de múltiplos talentos, Mário Moniz Pereira bem pode exclamar: "Valeu a pena ter vivido o que vivi."

 

Imagens:

1. Durante a homenagem que lhe foi prestada pelo clube em 2011, ao festejar 90 anos

2. Com Fernando Mamede, na década de 70

3. Capitão da equipa de Sporting campeã nacional de voleibol, em 1954 (jogava com o nº 8)

 


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14 comentários:
De Rui Gomes a 17 de Julho de 2012 às 03:21
Linda e merecida homenagem Pedro. O Senhor Atletismo de todos os tempos. Tive o prazer de o conhecer e de ver pessoalmente os resultados do seu notável trabalho, nomeadamente Carlos Lopes nas duas olimpíadas. Tenho uma história curiosa em que filmei a corrida inteira dos 10,000 m em Montreal, entre outros eventos - naqueles tempos em 8mm - e entreguei os filmes à minha madrinha, mesmo no estádio, enquanto filmava. Não é que quando chegámos ao hotel ela reparou que tinha perdido «apenas alguns» e esses «apenas alguns» eram precisamente os da corrida de Carlos Lopes. Mais tarde, logo após os jogos de Los Angeles, conversei com o atleta português e este foi bastante expressivo em atribuir ao prof. Moniz Pereira todos os méritos pelos seus feitos. Explicou-me, também, o «problema» de Fernando Mamede, mas isso é conversa para outro dia. Bom trabalho !


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 13:25
Obrigado, Rui. O professor Moniz Pereira sempre teve o dom de conseguir o melhor aproveitamento de atletas com características muito diferentes. Mamede e Lopes são o exemplo disso mesmo, cada qual no seu estilo.


De Rui Gomes a 17 de Julho de 2012 às 13:59
Por aquilo que Carlos Lopes me relatou, dá para imaginar a gigantesca tarefa do professor para tentar conquistar os problemas psicológicos de Mamede. Só pessoas com a enorme capacidade e tolerância dele poderiam enfrentar esse género de desafios. Um dia, se alguém merece um estátua em Alvalade será ele.


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 15:58
Na alta competição praticamente ninguém é imune a problemas psicológicos, de um tipo ou outro, em determinados momentos. Mamede proporcionou-me, como sportinguista e português, um dos momentos de maior alegria desportiva ao bater o recorde mundial dos dez mil metros naquele mês de Julho de 1984. De tal modo que ainda me lembro da marca: 27.13.81. Só cinco anos depois viria a ser ultrapassada.


De Pedro Oliveira a 17 de Julho de 2012 às 07:28
Muito bom, Pedro, muito bom mesmo.
Justa e merecida homenagem.
Que saudades das tardes passadas a ver corta-mato, ou corridas em pista, que saudades dum atleta que vi (ao vivo) a vencer uma prova de estrada, um senhor com umas longas barbas mas que mesmo assim não metia medo ao menino que fui, se tinha a camisola riscada de verde e branco só podia ser bom (e era) Aniceto Simões.
Voltando ao Senhor Atletismo, como dizes e bem, que grande exemplo para os treinadores arrogantes que são, apenas, génios nas vitórias e que quando perdem a culpa é sempre dos outros, dos árbitros, do relvado, do calendário, etc e tal.
Grande "post" e grande exemplo de Sportinguismo que Moniz Pereira nos dá a todos.


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 13:03
Partilho de grande parte das recordações que aqui expressas, Pedro. Também vi correr o Aniceto Simões, outro dos bons atletas desses tempos pioneiros que mudaram para sempre a face do desporto em Portugal. Do desporto-desporto, não do desporto-negócio.
Obrigado pelas tuas palavras.


De Rui Rocha a 17 de Julho de 2012 às 09:55
Sentida e justíssima homenagem a um dos expoentes máximos do sportinguismo e do desporto português, Pedro.


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 13:23
É um orgulho verificar que o nosso clube tem entre as suas numerosas figuras de referência alguém como o professor Moniz Pereira, Rui. Agradeço as tuas palavras.


De A. Santos a 17 de Julho de 2012 às 14:10
Competência, profissionalismo, carácter, e a maior de todas as suas virtudes, a humildade e simplicidade.

Saudações Leoninas


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 15:59
A humildade torna ainda maiores os atributos anteriores, meu caro. E é verdade: o Professor Moniz Pereira reúne essas qualidades todas.


De João Severino a 17 de Julho de 2012 às 16:09
Grande texto, Pedro. O meu vizinho professor bem merece esta singele e grandiosa homenagem.


De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 16:19
Merece todas as homenagens, sem dúvida. Obrigado, João.


De Fernando Albuquerque a 17 de Julho de 2012 às 19:59
Prezado Pedro Correia

Parabéns pelo seu texto. Escolheu um HOMEM a quem o SCP deve muitos êxitos que de certeza vão durar muitos anos a serem ultrapassados. Conheci o Professor nos anos 50/60, pois todos os dias que eu treinava lá estava ele na sua "oficina" que era a pista de cinza do estádio José Alvalade, que só mais tarde passou para tartan. Era uma pessoa espectacular, simples, pois conversava com todos os atletas do SCP de qualquer modalidade. No inverno o Professor queria que os seus atletas de fundo, fossem treinar connosco para ganharem mais resistência. O nosso preparador físico era o Ten . Coronel Lélio Ribeiro que nos dava grandes tareias . Pertencendo aos para-quedistas era usual termos de fazer 20 e mais voltas à pista de cinza e quando julgávamos que íamos descansar um pouco tínhamos de subir e descer as bancadas do estádio. Como isto para ele não era nada ainda fazíamos uns crosses pelos terrenos que hoje são grandes empreendimentos habitacionais. O Professor tinha nessa altura a competir o Manuel Faria e o Manuel de Oliveira, que foi meu colega no exército e outros que não me recordo. É evidente que nunca treinaram com a rapaziada do rugby , pois o M. Faria era o que se chamava uma carga de ossos, pois se tal tem acontecido no outro dia tinha múltiplas lesões tal a carga de treinos que nós tínhamos. No entanto jogavam no SCP /Rugby vários atletas que faziam parte da equipa de atletismo, lembro-me por exemplo do Fidalgo, do Sílvio Fiuza , todos corredores de 400 e 800 metros e decerto outros.

Durante esses poucos anos que fui atleta do SCP entrávamos pela famosa porta 10-A que dava acesso todos os balneários das modalidades , excluindo o futebol, que tinham outras instalações e aí cruzava-me com outros ídolos da altura, e de todos a única pessoa que tenho um autógrafo é do Professor Moniz Pereira no verso duma fotografia que o "nosso" saudoso fotógrafo João Capela, que tive o prazer de conhecer pessoalmente me tirou no estádio José Alvalade.

Como Sportinguista tenho de agradecer tudo o que o Professor Moniz Pereira, fez em prol do meu clube, pois os seus êxitos (muitos) farão parte da nossa história., que nós agora e os futuros adeptos nunca poderão esquecer.

Saudações leoninas Fernando Albuquerque






De Pedro Correia a 17 de Julho de 2012 às 21:42
Bonita a homenagem que aqui lhe prestou também, prezado Fernando. Gostei muito de o ler.


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