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És a nossa Fé!

Os nossos ídolos (5): Ferenc Meszaros

 

Em 1981, futebol ao vivo ou em directo e de qualidade tinha visto pouco. As memórias mais longínquas traziam um jogo do Lusitano, no Lobito, contra o Catumbela. Depois, já em Portugal, algumas escapadelas inesquecíveis, com o tio Zé e o André, sempre com a oposição da tia Mira, para ver grandes jogatanas do Vilanovense, no velho campo de Gaia. Mais a sério, meia dúzia de jogos em Espinho, a maior parte deles particulares de vida ou de morte, contra rivais como o Feirense ou o Fiães. Era então o tempo do Manuel José e do inigualável Malagueta. Do lado de lá, as vareiras. Na nossa bancada, mais abaixo, o primo Alberto que via os jogos com um periquito impassível no ombro. O periquito trouxera-o ele da Austrália, bem como a muitos outros, tal como acontecera com a mulher Jaqueline que, presumo, não devia fazer a mínima ideia do que vinha cá encontrar. No final dos jogos, ao fim da tarde de domingo, levávamos uma grande panela de caldeirada de peixe do Zagalo ou do Marreta, duas tascas mesmo ali à beirinha do estádio, para casa da minha avó. A caldeirada era saborosa, mas cheirava ainda melhor. Quase tão bem como o frango de churrasco da Alcobaça, que ainda lá está. Pertinho da estação, do lado de cima da linha, embora tenha outro nome. Em Braga, onde vivíamos, a ida ao estádio estava proibida. O meu pai tinha um ódio de estimação ao sempre presente Mesquita Machado e tinha jurado que não seria cúmplice da promiscuidade entre o clube e a autarquia. Na televisão, escasseavam as transmissões em directo e os resumos de Domingo à noite ainda eram a preto e branco. O futebol a sério, o futebol do meu Sporting, era, sobretudo, o dos relatos da rádio. E era a ouvi-los, nos jogos mais complicados, que eu ia fazendo negócios com Deus, prometendo a troca de alguns dos meus tesouros, uma caderneta de cromos, uma espada, um barco de piratas, por um golo ou uma vitória. Para além disso tinha estado, claro, no jogo do célebre golo do Manaca. Esse que vi com estes que também viram o Manaca, no dia seguinte, em Braga, a sair do consultório do oftalmologista Mário Peres, mesmo ali por cima da loja do meu pai, com um olho vendado, resultado directo da incompreensão de um adepto vimaranense mais exaltado. No verão de 81, todavia, o início da época apanhou-nos em Lisboa. Recordo como um dos momentos mais felizes da minha vida aquele do fim de tarde em que o meu pai me anunciou que tinha comprado bilhetes para irmos ver o meu primeiro jogo do Sporting em Alvalade, perante a incredulidade racional da minha mãe que nunca compreendeu como é possível que o entusiasmo de alguém fosse levado atrás de uma bola. A noite caía em Lisboa quando entrámos no velho Alvalade. Enorme, cheio, vibrante, a transbordar de esperança na nova época. Longos minutos de espera, até ao início. Até à iniciação. Na minha cabeça, tantos nomes que uma e outra vez ouvira na rádio. Mas, sobre todos os outros, o de Meszaros. O novo guarda-redes. Na barbearia do Nosso Café, em Espinho, já tinha ouvido o meu pai falar da aquisição com o Sr. Marciano, benfiquista coitado, e com o Beto, portista sofredor como eram todos os portistas por aqueles dias em que as alegrias lhes escasseavam. Que tinha vindo da Hungria, tão distante, tão cheia de nevoeiro, tão comunista. Que tinha sido um cabo dos trabalhos para o conseguir trazer para o Sporting. E não sei mais que histórias de grandes talentos, feitos de magiares e de uma cidade dividida por um rio que tinha do lado de lá Buda e do lado de cá Pest. E a mesma conversa com outros entendidos com quem o meu pai trocava argumentos no Nosso Café enquanto o Leonardo, sempre de macacão azul, lhe engraxava os sapatos e eu comia um bolo-de-arroz. Finalmente, entraram as equipas. Com tanto deslumbramento, recordo pouco do jogo. Mas, nunca hei-de esquecer a camisola tão branca do Meszaros, tão branca como eu nunca tinha visto a de outro guarda-redes. E as suas saídas da grande área para pontapear a bola para mais longe: não é falta papá? Que não, que podia estar descansado. E os seus lançamentos da linha lateral que nunca tinha visto outro guarda-redes fazer, um deles, já no final do jogo, mesmo juntinho à linha do meio campo: não é falta, papá? Que não, que podia estar descansado. O Sporting empatou 2 a 2 com o Belenenses. Mas eu ganhei um ídolo. À saída do velho Alvalade, as opiniões dividiam-se entre a frustração e a esperança. Um adepto, com aspecto de ter visto jogar os cinco violinos, sobrepunha a voz para afirmar que os espanhóis também não gostam de ver bons princípios aos filhos. O tempo viria a dar-lhe razão a ele e ao provérbio espanhol. Uns meses mais tarde, já perto do final da época, o Sporting jogava em Guimarães uma das cartadas fundamentais para a conquista do título. A equipa alojou-se no Hotel Turismo de Braga. Anda daí, vamos dar um abraço ao Jordão, disse o meu pai, perante a incredulidade da minha mãe. Vesti o equipamento do Sporting que os empregados da loja do meu pai me tinham dado há uns meses, pelos anos, com as meias verdes bem puxadas até aos joelhos. Esse mesmo com que marcara um golo com um remate antes do meio campo no torneio da escola. No único jogo que fiz antes de o capitão da equipa, numa decisão justa mas inqualificável, me ter deixado de convocar por falta de jeito. Entrámos no hotel e vimos logo o Jordão. Rocha, pá, estás com bom aspecto, dá cá um abraço, tu também estás bem, pá, vê-se que tens ido aos treinos, este é o teu miúdo?, anda cá Rochita, dá cá um passoubem. A conversa continuou por caminhos de Benguela, que o Raul estava muito bem, a fazer sucesso com o Milo no Duo Ouro Negro, que não sei quantas saudades das histórias do Oliveira Maqueiro e de não sei quem que saía à rua em pijama. A certa altura, aproximou-se o Mister, my friend Rocha, mister. E o Allison, com um sorriso de orelha a orelha, Jordão friend is my friend, Roca, I like roca, meu whiskey sempre on the rocas. Gargalhada antes de seguir em frente, em direcção ao bar, não sem antes me dar um calduço: nice boy. Entretanto, juntara-se o Fidalgo, velho conhecido de Braga, ele que era compadre do Pintinho que trabalhava então na Shop Jeans, ao lado do cinema Acil, do Ding Dong do Luís, benfiquista coitado, e do sogro Senhor Cruz, também benfiquista mas menos doente, coitado, da loja do Paulino fotógrafo e da tabacaria Francar. A conversa tinha seguido por outros caminhos, até os olhos do Jordão repararem em mim. Então, pá, Rochita, estás triste? Na. Estás, pá, que eu estou a ver... não me digas que és do Benfica? Não sou, não sou, eu queria era ver o Meszaros, sussurrei, com a cabeça baixa, enquanto fixava as minhas chuteiras. O Meszaros? Deixa lá ver onde é que o gajo anda... Deve estar no quarto a dormir. Vamos ali à recepção chamá-lo. Pá, Nogueira, diz a esse gajo que venha cá abaixo que está aqui o Rochita que quer conhecê-lo. Minutos depois, a porta do elevador abriu-se e o Meszaros, ensonado mas com um sorriso atrás do bigode, entrou no átrio. Cumprimentos, sorrisos. Prasser, senhorr Roca, darr um abrazo Rocita. Abraço, palavras de circunstância e um autógrafo na minha camisola do Sporting. Mais abraços, desejos de boa sorte, uma gargalhada longínqua do Allison e uma despedida: amanhã vamos ganhar. Na verdade, o Sporting ganhou logo nesse dia, no corredor de minha casa, onde sozinho joguei contra toda a equipa do Guimarães. Fiz de Jordão, que marcou dois golos de bandeira, de Oliveira, de Manuel Fernandes e de Meszaros, em nome de quem realizei três defesas impossíveis. Nessa noite, e em muitas que se seguiram, perante o olhar incrédulo da minha mãe, dormi com a minha camisola do Sporting. No dia seguinte, empatámos em Guimarães, mas acabámos por festejar o título com 7 a 1 ao Rio Ave. E a camisola assinada pelo Meszaros ainda anda lá por casa da minha mãe. Um dia, vou dá-la a um dos meus netos porque o Dinis não gosta de futebol. Se virmos bem, antes isso do que ser do Benfica.

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