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És a nossa Fé!

Os nossos ídolos (4): DINIS, orgulhosamente "brinca na areia"

 

Quando a bola chegava a Dinis o jogo parava. Ele começava por dar um pequeno toque no couro a medir-lhe o calibre, levantava a cabeça e nos próximos segundos aquilo era um assunto entre os dois, com um pobre tipo ali de permeio, a fazer de defesa direito.

Quando este tal tipo não era um qualquer mas chamava-se Artur, o caso mudava de figura e em vez de assistirmos a uma comédia, em que tantas vezes o defesa acabava trocado ou mesmo sentado no chão, o embate transformava-se num épico. Só Artur, primeiro na Académica e depois no Benfica (tendo acabado a carreira mais tarde no Sporting) ousava interromper a conversa particular entre Dinis e o esférico. Eram embates homéricos, que faziam chispa, às vezes ganho eu, outras ganhas tu, ambos sempre a pedir a bola de modo a prosseguirem aquela guerra. Dizia-se que cá fora eram amigos, mas lá dentro era o gingão contra o fução, sem darem descanso a ninguém.

Que esta rapaziada de agora tome nota disto: Dinis foi o melhor extremo esquerdo do Sporting e do futebol português de todos os tempos. E foi também o maior futebolista angolano de sempre. Talvez o único que possa pedir-lhe meças tenha sido Jacinto João, o coevo JJ do Vitória de Setúbal, natural de Angola como ele.

Muito pão deu Dinis a comer a Yazalde sob a forma de passes para onde quer que o Chirola lhe pedisse, com a bola pronta a enviar lá para dentro. Só bem mais tarde surgiriam os mísseis teleguiados e já Dinis os inventara. Mas estes passes eram precedidos por uma finta ou um par delas, desengonçadas, muito “se faz favor”, de canela fina e comprida, com a malandrice, a preguiça e a perna torta dos musseques de Luanda.

Esta vi eu, ninguém ma contou: Dinis acabara de passar pelo defesa como cão por vinha vindimada, mas o pobre homem era codicioso, como dizia o Alves dos Santos, e continuava a correr atrás dele, alçando umas patadas para o travar. Dinis estaca de repente e deixa-se ultrapassar, olha-o de caras e torna a fintá-lo como quis e lhe apeteceu, mas ao rodar sobre o adversário acabou por ficar uns segundos de frente para a bancada. E não é que naquela cara de tição se rasgou um traço muito branco: Dinis ria-se da maluquice com que endoidecia o outro.

A lampiãozada tinha-lhe mais pó que o Namibe, alcunhavam-no de “barrote queimado” ou “brinca na areia”, mas poucas foram as vezes em que não tiveram que trincar a língua; Dinis nunca se desinspirava nos jogos grandes, como às vezes acontecia nos menores. Ou porque acordava de rabo virado para a lua, ou porque a tarde lhe corria às avessas, tentava uma e não lhe saía, tentava outra e a bola escapava-se, e à terceira deliberava que não lhe apetecia mais, deixando correr o jogo à sombra da pala, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Só mais de uma década depois, Pedro Barbosa conseguiria irritar tanto a bancada velha.

A falta que faz ao futebol de hoje um fininho como o Dinis!

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