06 Jul 12

 

Quando a bola chegava a Dinis o jogo parava. Ele começava por dar um pequeno toque no couro a medir-lhe o calibre, levantava a cabeça e nos próximos segundos aquilo era um assunto entre os dois, com um pobre tipo ali de permeio, a fazer de defesa direito.

Quando este tal tipo não era um qualquer mas chamava-se Artur, o caso mudava de figura e em vez de assistirmos a uma comédia, em que tantas vezes o defesa acabava trocado ou mesmo sentado no chão, o embate transformava-se num épico. Só Artur, primeiro na Académica e depois no Benfica (tendo acabado a carreira mais tarde no Sporting) ousava interromper a conversa particular entre Dinis e o esférico. Eram embates homéricos, que faziam chispa, às vezes ganho eu, outras ganhas tu, ambos sempre a pedir a bola de modo a prosseguirem aquela guerra. Dizia-se que cá fora eram amigos, mas lá dentro era o gingão contra o fução, sem darem descanso a ninguém.

Que esta rapaziada de agora tome nota disto: Dinis foi o melhor extremo esquerdo do Sporting e do futebol português de todos os tempos. E foi também o maior futebolista angolano de sempre. Talvez o único que possa pedir-lhe meças tenha sido Jacinto João, o coevo JJ do Vitória de Setúbal, natural de Angola como ele.

Muito pão deu Dinis a comer a Yazalde sob a forma de passes para onde quer que o Chirola lhe pedisse, com a bola pronta a enviar lá para dentro. Só bem mais tarde surgiriam os mísseis teleguiados e já Dinis os inventara. Mas estes passes eram precedidos por uma finta ou um par delas, desengonçadas, muito “se faz favor”, de canela fina e comprida, com a malandrice, a preguiça e a perna torta dos musseques de Luanda.

Esta vi eu, ninguém ma contou: Dinis acabara de passar pelo defesa como cão por vinha vindimada, mas o pobre homem era codicioso, como dizia o Alves dos Santos, e continuava a correr atrás dele, alçando umas patadas para o travar. Dinis estaca de repente e deixa-se ultrapassar, olha-o de caras e torna a fintá-lo como quis e lhe apeteceu, mas ao rodar sobre o adversário acabou por ficar uns segundos de frente para a bancada. E não é que naquela cara de tição se rasgou um traço muito branco: Dinis ria-se da maluquice com que endoidecia o outro.

A lampiãozada tinha-lhe mais pó que o Namibe, alcunhavam-no de “barrote queimado” ou “brinca na areia”, mas poucas foram as vezes em que não tiveram que trincar a língua; Dinis nunca se desinspirava nos jogos grandes, como às vezes acontecia nos menores. Ou porque acordava de rabo virado para a lua, ou porque a tarde lhe corria às avessas, tentava uma e não lhe saía, tentava outra e a bola escapava-se, e à terceira deliberava que não lhe apetecia mais, deixando correr o jogo à sombra da pala, como se não tivesse nada a ver com aquilo. Só mais de uma década depois, Pedro Barbosa conseguiria irritar tanto a bancada velha.

A falta que faz ao futebol de hoje um fininho como o Dinis!


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3 comentários:
De Pedro Correia a 7 de Julho de 2012 às 01:33
Grande prosa, Zé Navarro. Muito bem. O futebol deve ser visto e lembrado assim: com paixão.
Como fazia e dizia o grande Nelson Rodrigues. Autor de frases imortais sobre o Fluminense, seu clube do coração.
Frases como estas:

“O Fluminense é o único time tricolor do mundo. O resto são só times de três cores”.
“O Flamengo tem mais torcida, o Fluminense tem mais gente!”
“Grandes são os outros, o Fluminense é enorme”.
“Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar”.


De Anónimo a 7 de Julho de 2012 às 01:45
Li com agrado ao mesmo tempo que vi reforçada a minha auto-estima.
Lamento discordar mas Seminário foi o melhor extremo esquerdo que jogou no Sporting. Foi por pouco tempo mas deixou cá uma saudade que nem se imagina.


De Fernando Albuquerque a 7 de Julho de 2012 às 17:53
Este jogador que eu vi jogar muitas vezes, era de facto extraordinário. São jogadores que raramente aparecem , com uma habilidade muito superior ao que agora vimos, mas para mim o melhor extremo que vestiu a nossa camisola e que aqui já foi mencionado foi o Seminário. FABULOSO.

O nosso brinca na areia sendo um grande jogador, teve para mim, um furo na sua vida, que foi ter ido jogar para o FCP , embora continuasse a ser excelente a sua forma de actuar. Esta é a minha opinião, jogador do SCP que vá para os clubes Portugueses adversários, não tenho a mesma simpatia e saudade, caso isso tenha acontecido, embora reconheça a sua qualidade como jogador de futebol.

Saudações leoninas Fernando Albuquerque


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