05 Jul 12
A Geração Academia de Alcochete
Eduardo Garcia da Silva

 
A Geração Academia. Portugal tinha no Euro 2012 dez jogadores formados pela Academia Sporting. Destes, cinco eram titulares e dois deles os melhores jogadores da equipa. 
O caminho seguido ao longo das últimas décadas merece uma reflexão séria, tanto a nível interno como do futebol português. 
O Sporting nos últimos vinte anos ganhou dois campeonatos e nesses dois anos, 2000 e 2002, a formação teve uma influência diminuta. 
 
Formação
                                                                                               
Em 2000 
Jogadores titulares - Beto
No plantel - nenhum que jogasse um mínimo de 10 minutos  
Em 2002
Jogadores titulares - Beto e Hugo Viana
No plantel (com alguma utilização) - Ricardo Quaresma
Como se pode comprovar, a formação leonina não foi sinónimo de conquista de campeonatos. Então porque existe uma aposta tão forte? O Sporting sempre foi, mesmo nos anos de "vacas gordas", um clube formador. Os adeptos leoninos identificam-se com esta prática. É uma questão de identidade. É esta a filosofia que todos os clubes deviam seguir. E somos muito bons a fazê-lo. Nos últimos dez anos, no entanto, o paradigma mudou. Durante anos o clube formou grandes jogadores, mas a equipa não estava dependente deles. Na última década, também devido à falta de liquidez financeira e a uma péssima gestão desportiva, a aposta foi clara nos jogadores da formação. Foi mesmo graças aos "miúdos" que o clube foi lutando pelo título e foi quatro anos seguidos à Liga dos Campeões. Aqui saltam rapidamente vários pensamentos e teorias. Lembro-me muito bem que os comentários dos "especialistas" da televisão e jornais eram e passo a citar: "um clube de miúdos não ganha campeonatos", "o Sporting para ser um clube ganhador tem de investir em jogadores experientes", "o Sporting devia seguir o exemplo de Benfica e Porto", "os miúdos deviam fazer a passagem para o futebol profissional fora de Alvalade", "este não é o caminho para um clube com a grandeza que tem o Sporting" e etc
 
A visão do Sportinguista: 
Por um lado:
 
Como é que um clube que todos os anos forma óptimos jogadores não é campeão mais vezes? Porque ao longo dos últimos anos as políticas desportivas foram as erradas. Houve uma falta de visão gritante e um aproveitamento que podia ter sido glorioso foi apenas suficiente. Não se pode formar Cristianos Ronaldos e Figos e não ser campeão pelo menos uma vez. Não se pode apostar cegamente nos jogadores provenientes de Alcochete e não lhes fornecer uma equipa estruturada, sustentada e com líderes. Não se pode entregar a braçadeira a um miúdo sem carácter. Tem de existir o máximo aproveitamento possível dos "nossos" jogadores mas tendo sempre a preocupação de a responsabilidade não estar sobre os seus ombros. Além da categoria futebolística, os restantes jogadores do plantel têm de ser, também, uma mais valia "paternal". Têm de ser vistos com respeito e com admiração. OguchiRinaudo e Schaars entram directamente para este patamar. É este o caminho. Na época passada assistiu-se a um choque com o passado recente. Foi refrescante. Foi fundamental. O investimento foi grande e trouxe com isso um maior endividamento. O que agora é criticado por muitos Sportinguistas foi pedido durante anos. Curioso. Foi muito importante a vários níveis: dotar o plantel de jogadores com categoria internacional, trazer esperança à massa adepta e fazer um choque com o passado mais recente. Ao contrário do que se disse e escreveu esta nova etapa não significava minimamente uma mudança cultural no clube. E aqui cultural está relacionado com o facto de sermos um clube formador. Aqui o que estava em causa era uma filosofia errada. Não temos capacidade para manter por muitos anos os jovens por nós formados e por isso não conseguimos jogar com 7-8 ao mesmo tempo e sermos campeões com regularidade. Neste ponto o Barcelona é um caso à parte. O presente e o futuro é conseguir fazer uma mescla. A partir de agora a forma como os "miúdos" entram na equipa vai de encontro ao que sempre defendi para o Sporting. Já não é preciso contratar 18 jogadores. Esse trabalho está feito, e bem feito. Agora é simples. O normal início dos jogadores no futebol profissional faz-se na equipa B passando gradualmente para a equipa A. As posições carenciadas ou que não consigamos formar dentro vai-se contratar cirurgicamente fora.
Por outro lado:
Eu quero continuar a ser um clube formador. Um clube que aposta nos jogadores por si formados. Mas para isso o futebol português também tem de querer. Não pode ser só o Sporting a ter jogadores da formação a jogar com regularidade. As leis existentes em Portugal são totalmente contra quem quer apostar no jogador Português. São totalmente contra quem quer apostar na formação. Se observarmos os campeonatos que se equivalem ao nosso apercebemo-nos rapidamente de uma diferença abismal. Existe uma clara aposta, tanto ao nível dos clubes como das federações locais, no jogador nacional. Ver por ex. campeonatos Holandês e Francês. Em Portugal, tirando o Sporting nos últimos anos, ninguém aposta/joga com os jogadores portugueses. As excepções existem, mas são raras. Os jogadores estrangeiros, os empréstimos destes e o refugo dos grandes ditam as leis. Os jogadores com 18-21 anos são raros, para não dizer inexistentes, no nosso campeonato. Isto tem de mudar. O futebol português tem de mudar. 
 
A visão do adepto nacional:
Rezar para que a Academia continue a dar frutos. Desejar que o Sporting continue a apostar na formação. Se não passamos a estar ao nível da Bélgica ou da Dinamarca. 

A Selecção Nacional sub-19 fez anteontem o primeiro jogo no Europeu da categoria. No onze inicial estavam 7 jogadores do Sporting. E não estavam lá: Ié, Mica, Chaby ou Iuri Medeiros..
                                                                                                                                                      Texto também publicado Aqui


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6 comentários:
De JS a 5 de Julho de 2012 às 13:31
Muito bom texto! E sou exactamente da mesma opinião. É importante saber conciliar a formação de jovens talentos e a construção de uma equipa capaz de lutar por títulos. E nesse ponto, o Sporting tem falhado. Tenho grandes expectativas que esta Direcção e este Departamento de futebol consigam mudar o rumo do futebol do Sporting. As sementes foram lançadas no último ano. Agora é continuar a trabalhar e ter paciência. Estes feitos atingem-se com anos de trabalho. Não podemos esperar alterações fantásticas do pé para a mão.


De Eduardo Garcia da Silva a 5 de Julho de 2012 às 15:43
Obrigado Caro JS. O meu sonho seria ser campeão regularmente com 26 jogadores formados por nós, mas infelizmente isso é uma utopia. Acredito que, finalmente, podemos estar no caminho certo.
SL


De Rui Gomes a 5 de Julho de 2012 às 16:02
Caro Eduardo, compreendo e concordo com a essência do seu escrito. Fez bem em abordar o tema, muito embora eu saiba, por experiência própria, que é de difícil explanação, especialmente por escrito em espaços forçosamente limitados. Dois breves pensamentos: é indiscutível que tem que existir uma melhor e maior conciliação de gestão e aproveitamento de talentos, entre a formação e a equipa principal. Um desses aspectos que o adepto, na generalidade, opta quase sempre por ignorar, é o incontontornável inferior poderio do Sporting para fazer apostas e garantir a continuidade de jovens que ainda estão longe do seu auge, partindo do princípio que o irão atingir. Muito por isso, é inevitável que alguns se percam pelo caminho. Por norma, fala-se pós facto, quando as mais importantes decisões têm que ser assumidas muito antes de saber o valor do atleta no longo prazo. Outro aspecto, muito relevante ao consulado de Paulo Bento no Sporting, relaciona-se com o sistema de preparação e jogo por toda a formação que, posteriormente, deparece na equipa principal. Respeito muito Paulo Bento e o seu profissionalismo, mas o que ele faz na equipa principal, pese os resultados de moderado sucesso nos seus quatro anos ao leme, nãoforam saudáveis para a formação. Recordo, em conversa com Mário Lino, ele se lamentar que toda a formação fomentava o desenvolvimento de extremos, para chegarem à equipa principal sem possibilidade de integração porque o sistema de jogo dispensava essas posições. Temos o exemplo do Varela, que deu mais nas vistas, mas há outros. Vou ficar por aqui, Como já referi, isto é um assunto muito complexo e de difícil abordagem por escrito. Termino com o seguinte pensamento: o adepto, por norma, fala naqueles talentos que por razões várias se extravariam e, mais tarde, deram provas de valor noutras circunstâncias e noutros clubes. E quanto gasta o Sporting com a vasta maioria que nunca chegam a lado algum ? Cumprimentos.


De Eduardo Garcia da Silva a 5 de Julho de 2012 às 16:18
Caro Rui este é realmente um tema que merece uma reflexão mais aprofundada. Concordo com as ideias aí levantadas que vão de encontro ao que escrevi. Quando se pensava que se estava a fazer um óptimo aproveitamento da formação não se podia estar mais errado. O caminho a seguir era o exactamente o contrário. Mas fica para outras calendas ou autor :)

Entretanto Caro Pedro Correia veja este texto. Vai de encontro ao que, brilhantemente diga-se, vai denunciando aqui no blog. O mau jornalismo está a atingir patamares sem vergonha.

http://ocacifodopaulinho.wordpress.com/2012/07/05/hipocrisias/
SL


De Pedro Correia a 5 de Julho de 2012 às 23:42
Excelente texto - quase um ensaio. Um dos melhores que já foram aqui publicados, Eduardo. Revejo-me no que escreves. E dou-te os meus parabéns pela sólida fundamentação e pela óptima capacidade de expressão que revelas.


De Jose Manuel Barroso a 8 de Julho de 2012 às 10:19
O que o teu texto tem de estimulante, Eduardo, é que ele 'pensa' (ou induz a pensar) uma das vertentes fundamentais do futebol do Sporting (e do futebol português). É um excelente contributo para debater o Sporting - um pontapé de saída para o debate necessário. Vou aproveitar o teu balanço, nos próximos dias. Obrigado.


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