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És a nossa Fé!

Politicamente incorrecto*

Hoje em dia as idas aos estádios são politicamente correctas. Independentemente de algumas turbas de adeptos que, às vezes, não se controlam e dão mau nome ao desporto e a equipa que apoiam, o facto é que o futebol tornou-se, na verdadeira acepção da palavra, um desporto de massas e, mais importante que isso, de famílias.

Actualmente, é comum verem-se famílias inteiras, com filhos pequenos e mulheres,  na festa do futebol. Mas nem sempre foi assim. Nas minhas memórias de infância retenho que o deporto-rei e as idas ao estádio eram uma coisa de gajo onde, tipo clube do Bolinha, “menina não entra”. Nessa altura, ninguém se preocupava com a ASAE e fazia parte da tradição ir às roulotes para comer uma sandes de coirato ou de presunto e beber umas minis antes do jogo.

Comecei a ir ao estádio, ao velhinho Alvalade, muito cedo e sempre em família. Na altura, ainda não tinha, obviamente, idade para beber álcool e comer a sandes da roulote, mas fui acompanhando essa tradição até à altura, em que, por volta dos meus 16 anos, entrei na idade adulta. Confesso que a primeira vez foi horroroso. A cerveja soube-me mal e o coirato era duro, duro... Mas, como fazia parte  da tradição, lá aguentei estoicamente.

No estádio, ainda não havia os “stewards” e a segurança era feita por agentes da autoridade tipicamente anos 70/80: barriga proeminente, bigode farto, homens que gostavam de ir ao estádio pelas comezainas e pela bola. O povo era sereno, já dizia um político da época, e ir ao futebol era um programa de homens, para homens. Por isso, era normal entrarem garrafas de 1920 (lê-se mil nove e vinte pf...), aguardente Barrocão e, nos mais sofisticados, whisky martelado made in Odivelas.

Tínhamos sempre uma sorte bestial (ironia, claro) e apanhávamos estas personagens que, entre o final da primeira parte e o início da segunda já insultavam estoicamente a mãe do árbitro, gritavam Sporting com uma voz muito arrastada e ficavam cheio de calores, mesmo que estivéssemos em pleno Janeiro. Foi no Estádio que aprendi as minhas primeiras asneiras e onde perguntei ao meu pai o que queria mesmo dizer a palavra começada por “p”...

Um dia, um destes grupos que bebia mil nove e vinte pela tampa da garrafa, que era passada de mão em mão, virou-se para trás e ofereceu-nos um trago. Entre as desculpas das crianças e o não bebo álcool, o meu pai lá se safou ao suplício desta partilha pouco higiénica.

No resto, os jogos passavam-se dentro da normalidade possível. Havia uns que ganhávamos, outros que não. Mas todas estas experiências, boas ou nem tão boas quanto isso, serviram para que, cada vez que ia ao Estádio, me sentisse em família. Mesmo quando tínhamos à nossa frente aqueles “familiares” de que temos vergonha. No final do jogo, vencedores ou derrotados, sóbrios ou ébrios, éramos todos Sporting.

 

*Artigo publicado hoje no jornal do Sporting

{ Blog fundado em 2012. }

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