02 Jul 12

 

Pedem-me para falar de ídolos. Tenho vários: todos do Sporting, com a excepção de um mito vivo italiano que um dia destes trarei aqui. Não é, hoje, o dia dele. Não é fácil escolher um grande ídolo verde e branco. Podia falar de Sá Pinto e de tudo o que ele simbolizou na minha juventude: coração, rebeldia, paixão por uma causa, intempestividade, raça. Podia falar da classe de Valckx, Luisinho, André Cruz, Douglas ou Balakov. Da entrega de Filipe, Duscher ou Oceano. Tudo nomes que levo para a cova, posso-vos garantir. Mas há um que me fez chorar, gritar, viajar, passar chuva, frio, correr o país de comboio, autocarro, trepar vedações para erguer lá no alto um punho cerrado de raiva pelos golos que marcava. Todos de raiva e com muito coração.

Eu tenho uma admiração gigantesca por Iordanov. Um búlgaro tosco que Sousa Cintra um dia se lembrou de ir buscar. Estava longe de ser tecnicamente brilhante, mas representou tudo o que gosto num jogador que sabe dessas limitações: raça, amor ao clube, respeito pelos sócios, entrega, capacidade de sofrimento. E que sofrimento passou ele. Do desastre à doença, da travessia no deserto dos títulos, ele mostrou que era possível dar a volta, superar adversidades internas e externas, criar um balneário forte. Querer vencer. Foi ele que nos deu aquela extraordinária e quente tarde no Jamor contra o Marítimo, talvez a primeira grande conquista presenciada pela minha geração. Foi ele que não descansou, mesmo com a doença a apoderar-se, enquanto não ganhou o campeonato para poder, lá em cima da glória, terminar a carreira. Foi ele que abraçou o leão do Marquês e fez ver a este país a verdadeira dimensão do Sporting Clube de Portugal.

Era ele que, ganhando ou perdendo, aplaudia cada deslocação fora, porque sabia que esse esforço colectivo era também uma dedicação por ele partilhada. Iordanov, os topos sul e norte, a central e a nova: uma só mística, uma só dedicação, um só símbolo no peito. Nunca, na mítica espera à porta da 10A - e que hoje tanta falta às vezes faz - Iordanov foi apupado. Era sempre aplaudido, mesmo quando perdíamos. Eu só tenho duas camisolas de jogadores do Sporting guardadas e uma delas está assinada pelo Iordanov, o mesmo capitão que me deu a honra de assinar o bilhete de Vidal Pinheiro. Da boca dele, ouvi então: "no Sporting até jogava de graça". Obrigado por tudo, campeão.


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4 comentários:
De Luís de Aguiar Fernandes a 2 de Julho de 2012 às 21:14
Um tosco, mas um tosco dos nossos, que dava a cara nos momentos bons e maus e que deu sempre tudo o que tinha, dentro e fora do campo. Grande Iorda!


De Pedro Correia a 2 de Julho de 2012 às 22:06
Uma homenagem sentida e justíssima, Bernardo. Muito bem. Esta série começou bem e está a continuar ao mesmo nível.


De Francisco Mota Ferreira a 3 de Julho de 2012 às 11:32
Mto bom Bernardo. Uma merecida evocação a uma grande sportinguista.


De Francisco Melo a 3 de Julho de 2012 às 12:28
Um enorme sportinguista.
Devo ao Iorda várias coisas, muito bem descritas pelo Bernardo: a conquista da taça de Portugal frente ao Marítimo, que foi o primeiro troféu que vi o nosso Sporting conquistar, e a materialização do lema do nosso clube em todos os jogos que o representou (esforço, dedicação, devoção e glória).
Por tudo isso, em Maio de 2010, fiz questão de estar no jogo de homenagem que fizeram a Iorda.
Regra geral, os nossos clubes não sabem fazer as merecidas despedidas dos seus ídolos. Então no caso do Sporting mais gritante se tornou essa falta de sensibilidade, uma vez que à falta de títulos, foi a entrega e dedicação de jogadores como Iorda que asseguraram nuns casos a conquista, na maior parte deles a fidelização de adeptos, que assim não se perderam para os nossos rivais.
Fico sempre contente quando leio que algum antigo jogador nosso está de passagem por Portugal e vai até Alvalade ver a nossa equipa.
Iordanov será sempre dos nossos, e a imagem dele junto ao leão do Marquês ficará para sempre imortalizada no nosso imaginário coletivo.
SL


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