01 Jul 12

 

Conforme o Pedro anunciou aqui, coube-me a sorte alfabética (um karma que me persegue desde a escola) de inaugurar esta série dedicada aos “Ídolos” que marcaram os escribas deste blogue.

 

Acresce a este karma o outro karma, o de nunca ter sido dada a idolatrias. Nem sequer  nas idades em que somos mais tendentes a esses fervores. Sempre fui demasiado eclética, sempre gostei demais de demasiadas coisas, demasiados autores, demasiadas ideias. A humanidade sempre me pareceu  tão rica, tão contraditoriamente rica que regularmente  recusei a ideia de me  fixar num personagem, numa ideia, numa corrente.

 

Claro que a idade tinha que ter alguma vantagem e essa vantagem é a de podermos – e devermos – dar-nos ao luxo de começar a seleccionar o que realmente nos preenche e nos deve acompanhar no resto, que subitamente se anuncia, das nossas vidas. Começamos a recusar conhecer novos escritores, porque dificilmente leremos e releremos aqueles que amamos, começamos a recusar novas experiências musicais porque a nossa alma já está preenchida com replays e reinterpretações de sons que definitivamente já atribuímos a deus.

 

Neste reduzido universo em que me movimento, o do futebol é ainda mais reduzido.  A minha experiência futebolística sempre foi condicionada pelo conflito insanável de ter mãe sportinguista e pai benfiquista. Gostando comme il faut dos dois igual, a minha relação confessa com o clube ficou essencialmente reduzida ao ciclismo e ao hóquei em patins, modalidades em que se consegue sempre ser politicamente correcta.

 

Posto este fastidioso preâmbulo, a minha escolha para esta série recai no jogador que é simultaneamente o meu putativo ídolo  e a essência da alma lusitana, que só  Mário de Sá-Carneiro  conseguiu pôr a rimar. Um pouco mais de sol - eu era brasa/Um pouco mais de azul - eu era além/Para atingir, faltou-me um golpe de asa/Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Isso, estou a falar de Pedro Barbosa, titular do Sporting durante dez anos, quase tantos outros capitão da equipa. O mais inteligente dos jogadores que passou por este clube. O mais amado e o mais mal-amado.  Um ser capaz do mediano e do melhor superlativo. Um jogador que teve uma grande carreira e que passou ao lado de uma grandessíssima carreira. Uma leitura de jogo sempre perfeita, golpes de asa, necessariamente irregulares, má imprensa em geral, vítima dos mitos suburbanos a que nenhum jogador está imune.

 

Pedro Barbosa incorpora a genialidade lusa e o seu eterno estigma. A capacidade de ser grande e único e a irresistível tentação de não o confirmar consistentemente. O arauto do direito à genialidade e à preguiça. A eterna luta entre o direito à poesia e à afirmação da invencibilidade.

 

Pedro Barbosa, um dos nossos. Sempre.

 

PS: E, disse ele recentemente, só marcou dez ou onze penalties na sua longa carreira. E nunca falhou nenhum.


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16 comentários:
De Zélia Parreira a 1 de Julho de 2012 às 17:32
Ordem alfabética???? Quando chegar a minha vez, falo sobre o quê? Sim, eu sei que há muito para dizer, mas a julgar pela primeira amostra... uma das minhas possibilidades já está (muito bem) aproveitada.

Parabéns pela escolha, e vou começar a fazer uma lista com 50 possibilidades, pode ser que ainda reste alguma coisa quando chegar à minha vez...


De Alda Telles a 1 de Julho de 2012 às 17:36
eheheh Zélia, nem tinha reparado, mas nós as duas somos o alfa e o ómega deste blogue. Essa é que é essa.


De Rui Gomes a 1 de Julho de 2012 às 18:15
Está bem posicionada Zélia, pela boa companhia; dois Rui e dois Pedro !!!


De Pedro Correia a 1 de Julho de 2012 às 23:05
Ó Zélia, há quem esteja pior. Como a série começou (e muito bem) pela Alda, depois de si há ainda outros colegas cujo nome começa por A para terminar a ronda.
Eu também já estou a preparar a minha listinha...


De Rui Gomes a 1 de Julho de 2012 às 18:24
Parabéns pelo excelente escrito inaugural da série e pelo acerto futebolístico com Pedro Barbosa. Como tantos outros, penso eu, tanto o louvei como lhe roguei pragas e frequentemente comentei que o Sporting deveria apenas de lhe ter dado contractos anuais. De qualquer modo, foi uma mais-valia para o nosso Clube e não me incomodaria, minimamente, de ter um talento como o dele no plantel actual.


De Alda Telles a 1 de Julho de 2012 às 18:47
Quem nos dera, Rui. Independentemente dos seus resultados oscilantes, era o guia intelectual da equipa, o seu ponto de referência. Era evidente sempre que saía do campo, a equipa desfazia-se.


De A. Santos a 1 de Julho de 2012 às 18:34
Confesso que tenho saudades de ver o Pedro Barbosa jogar. Atleta e ser humano extraordinário. Tinha grande garra dentro do campo, e ao mesmo tempo parecia que tratava a bola, com medo de a aleijar. Era como se de um animal de estimação se tratasse. Dava-lhe mimos, mas como era bola e tinha que a chutar, pedia-lhe desculpas... Fantástico.

S.L.


De Fernando Albuquerque a 1 de Julho de 2012 às 19:22
Começo por lhe dar os parabéns, pois fez uma escolha correcta num atleta que nos merece a maior consideração, pois sempre respeitou o SCP, ao contrário de outros jogadores que nunca deveriam ter vestido um equipamento do nosso clube.

Falando do Pedro Barbosa, julgo que poucos jogadores passaram pelo SCP com a sua qualidade. É verdade que por vezes nos irritava pela sua forma de jogar. mas compensava com grandes jogadas que tivemos o prazer de assistir. Se ele ler este comentário, o que pode acontecer, quero dizer-lhe que ainda hoje aos 72 anos como 2/3 pasteis de
nata e se Deus quiser farei isso até ao fim da minha vida.

Também eu tive esse trauma do nome,(letra A) pois fiz sempre os exames no primeiro dia, o que era uma desvantagem para mim.

Saudações leoninas Fernando Albuquerque



De Alda Telles a 1 de Julho de 2012 às 19:32
Obrigada, Fernando. A história dos pastéis de nata mostra quanto à frente o Pedro estava, até na visão estratégica para o desenvolvimento do país;)


De Zélia Parreira a 1 de Julho de 2012 às 23:27
Amigos AAAs, nem sabem a sorte que têm. Ser a última, ainda por cima quando se é impaciente, é terrível. Só tem uma vantagem, sou fácil de encontrar em listas e coisas do género.

Quanto ao que realmente interessa, o Pedro Barbosa, a quem associo sempre a expressão "futebol com perfume", é um dos meus ídolos e ainda hoje dou por mim a cantar muitas vezes o seu nome a meio de um jogo, mesmo sabendo que está fora dos relvados há tanto tempo.

Pedrooo Barboooosa!


De José da Xã a 1 de Julho de 2012 às 23:50
Já o disse por diversas vezes: tivesse o Pedro Barbosa metade do espírito de sacrifício e vontade de trabalhar do Oceano e era o melhor jogador de todos os tempos do Sporting e quiçá de Portugal. Eu vi-lhe fazer coisas... no mínimo mirabolantes. Como muito bem disse era amado e muito mal amado. Eu simplesmente adorava-o. Grande escolha.


De Pedro Correia a 2 de Julho de 2012 às 00:12
Excelente pontapé de saída, Alda. A série promete. E aposto que o Pedro Barbosa será o primeiro a gostar.


De jpt a 2 de Julho de 2012 às 01:31
Mais do que tudo, belo texto. Perdão, grande jogada ...


De Alda Telles a 2 de Julho de 2012 às 17:52
eheheh... obrigada, José. Beijinho.


De Francisco Mota Ferreira a 3 de Julho de 2012 às 11:29
Uma estreia em grande... eu já vos confidenciei os meus... e preparo uma marotice a esta direcção do nosso grande Clube. Pode ser que pegue...


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