01 Jul 12

O presidente da FIFA, como o Rui Gomes já aqui assinalou, lembrou-se agora de criticar o recurso aos penáltis como forma de decidir qualificações para fases seguintes de torneios ou mesmo a conquista de alguns dos mais prestigiados troféus internacionais no futebol. Salvo melhor opinião, Joseph Blatter escolheu uma péssima ocasião para o efeito. Diz ele que as grandes penalidades são "uma tragédia" e fazem perder "a essência do futebol enquanto jogo colectivo". É inaceitável que fale assim poucos dias após um dos melhores golos do Campeonato da Europa ter sido marcado precisamente de penálti, pelo excelente Andrea Pirlo, campeão do mundo em 2006, actual campeão de Itália pelas Juventus e um dos mais fantásticos jogadores do Euro 2012, que termina hoje, em Kiev, com o jogo Espanha-Itália.

 

"A arte de jogar com os pés": foi desta forma certeira que El País qualificou o talento de Pirlo, único jogador até agora eleito o melhor em campo em três partidas deste Europeu. As palavras impressas no jornal espanhol, apesar de terem sido escritas antes das declarações de Blatter, parecem ter sido especialmente dirigidas para ele: "Apesar de ser um desporto de equipa (...), o futebol exige um gesto egoísta por excelência, um momento de glória pessoal, uma jogada para a posteridade, a fim de [um jogador] passar à condição de celebridade. Não é nada simples encontrar um momento tão solene e tão íntimo sem atraiçoar a condição de futebolista solidário admirado em todo o mundo."

Pirlo teve o seu momento nesse terceiro penálti contra os ingleses que deu ânimo aos italianos e destroçou psicologicamente a equipa adversária. Segundos antes, a squadra azzurra afundava-se naquele dilacerante embate dos quartos-de-final terminado num empate nulo. Segundos antes, o guarda-redes inglês Joe Hart parecia imbatível. A grande penalidade marcada "à Panenka", que eleva um simples penálti à condição de obra de arte, virou o destino da partida e tornou Pirlo um sério candidato à Bola de Ouro de 2012 (único dos mais cobiçados troféus ainda não conquistado por este ex-campeão europeu pelo Milan que também venceu o Mundial de Clubes em 2007). Tem a certeza de que um penálti é uma tragédia, senhor Blatter?).

 

Mestre da finta em espaço curto, especialista em passes longos que produzem soberbas variações de flanco, dotado de uma excepcional visão de jogo, Pirlo assume-se como comandante natural da selecção italiana - algo que falha noutras equipas. E voltou a ser fundamental na concludente vitória italiana das meias-finais contra a favorita Alemanha, conduzida à vulgaridade pelos seleccionados de Cesare Prandelli. Nesse jogo, disputado dia 28 em Varsóvia, a Itália não se limitou a ganhar: também deslumbrou pelo seu futebol inteligente e requintado. Com dois grandes golos de Balotelli, na sequência de excelentes passes de Cassano e Montolivo. E poderia ter ampliado a vantagem no festival de golos perdidos ocorrido na segunda parte, com Marchioso e Di Natale a falhar de forma tão clamorosa como Cristiano Ronaldo no último minuto da nossa meia-final disputada com os espanhóis.

Os espanhóis - que o presidente da UEFA, Michel Platini, pretendia desde o início ver na final disputada mais logo no estádio olímpico de Kiev - não terão tarefa fácil contra a equipa que mais tem corrido neste Europeu, sob arbitragem de Pedro Proença. Andrea Pirlo sabe, de facto, pensar com os pés. E consegue pôr o resto da equipa a pensar como ele.

 

Meia-final (jogada quinta-feira): Alemanha, 1 - Itália, 2


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3 comentários:
De Rui Gomes a 1 de Julho de 2012 às 16:14
Sinceramente Pedro, não sei se o autor da frase no jornal espanhol estava a referir-se a grandes penalidades. Fico com a ideia de que ele pretende sublinhar «jogadas» individuais de nível brilhante. Isto não menospreza o excelente Euro 2012 de Pilro.
Quanto à referência à oportunidade perdida por Cristiano Ronaldo nos derradeiros instantes do tempo regulamentar com a Espanha, muito embora ele tenha capacidade para tudo e mais alguma coisa, o maior culpado foi Raul Meireles que passou a bola nas costas do colega que estava num «sprint» de 40 metros, obrigou-o a travar e, nesse processo, perdeu a fluidez do trajecto. Claro, com remate com o pé esquerdo mais certeiro teria resolvido a contenda, mas não aconteceu. Como já tive oportunidade de sublinhar, detesto as grandes penalidades e não conheci nenhum interveniente ao longo dos anos que não sinta o mesmo, não obstante o vincado oportunismo de Blatter . A realidade nua e crua é que num remate bem executado o guarda-redes não tem qualquer hipótese. Depois, a exemplo do que fez Fàbregas , ainda temos aqueles que são mal executados e por mera sorte e nada mais, dão golo. Aquele, especificamente é incrível, porque a rematar com a parte de dentro do pé para o seu lado esquerdo, é impossível dar efeito spin ) à bola, salvo por trivela », que ele não fez, nem faria. Mesmo assim, ela bate em cheio no poste, atravessa a linha de golo e entra. Muito relaciona-se com estas bolas novas. Há uns anos atrás aquela bola nunca entraria.


De Pedro Correia a 1 de Julho de 2012 às 17:00
Rui, não digo que o artigo tenha sido escrito a propósito do penálti. Acontece, isso sim, que a tese - para mim certeira - confirmou-se nesse penálti, que muitos reconhecem ter contribuído para o desarmamento psicológico dos ingleses num instante crucial. "Apesar de ser um desporto de equipa (...), o futebol exige um gesto egoísta por excelência, um momento de glória pessoal, uma jogada para a posteridade" - lê-se no 'El País'. E muito bem. Um penálti pode ficar gravado para sempre na memória de quem o viu ser executado em directo, como sucederá certamente com este. Tal como o do Panenka, que ocorreu em 1976 e ainda hoje é lembrado. Ou o do Ricardo, que sendo guarda-redes marcou o penálti decisivo contra a Inglaterra que qualificou Portugal para as meias-finais do Euro 2004.
Dito isto, também concordo com outro critério de desempate: esse do maior número de remates feitos à baliza contrárias parece-me muito apropriado. Blatter é que não devia ter falado disso agora, entre as meias-finais e a final de um Europeu, que até pode ser decidido por penáltis (como sucedeu, por exemplo, no Mundial de 2006, ganho pela Itália).
Achei essas declarações disparatadas. Por serem tão inoportunas.


De Rui Gomes a 1 de Julho de 2012 às 17:06
Concordo inteiramente Pedro, nesse contexto. O acto corajoso e brilhantemente executado por Ricardo, ocupa lugar de relevo no meu álbum de recordações notáveis e, porventura, no do futebol português.


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