15 Jun 12
António Simões foi um jogador fabuloso que ocupa lugar de relevo na história do futebol português. Sempre foi merecedor da minha  maior admiração e, por mera coincidência e nada mais, tive o prazer de ser seu companheiro de equipa  num amistoso há uns anos atrás. Como outros portugueses antes dele, sentiu agora a necessidade de fazer alvo crítico de Cristiano Ronaldo, como se a pressão em torno do jogador já não fosse suficiente: «Ronaldo expõe-se demasiado à crítica e passa uma imagem de egocentrismo e irresponsabilidade, o que legitima o direito de qualquer português à crítica. Foi uma irresponsabilidade do senhor Scolari dar a braçadeira de capitão ao Cristiano quando ele era tão novo. Para que fique claro, eu nunca critico o rendimento de um jogador. Tenho noção de que há dias melhores que outros. No entanto, há aspectos sobre os quais tenho legitimidade para criticar. Não concordo com os comportamentos que o Ronaldo tem tido na Selecção. Exemplos? Não expressa contentamento quando ganha quando os colegas o fazem. Além disso, não festejar com os portugueses quando os restantes atletas o fazem é uma atitude egocêntrica. Um bom capitão é líder na hora da vitória e da derrota. As críticas não podem afectar. Não faz sentido. Um jogador tem de estar preparado para receber críticas e continuar a fazer o seu trabalho. Era assim comigo. O que acho é que as pessoas devem ter a atitude adequada para que não existam motivos para as críticas».

Tentar compreender a intenção de António Simões e o timing das suas declarações será um exercício de futilidade, com certeza. Para sua informação, enquanto apenas cidadão, o que ele já é há muitos anos, a sua legitimidade para criticar é igual à de qualquer outro, não obstante, pelo seu passado, ter mais fácil acesso à media. Comparar a atenção que ele mereceu durante a sua carreira e a que foca em Ronaldo  agora, nos tempos em que vivemos, é somente fantasista. Serei o primeiro a admitir que Cristiano Ronaldo não terá uma postura primorosa, no contexto das palavras de António Simões, mas é a mesma que sempre exibiu enquanto no Manchester United e mais recentemente no Real Madrid, sem se verificar qualquer prejuízo para esses emblemas por isso, em vincado contrário. É, igualmente, a mesma que o acompanhou ao longo de nove anos ao serviço da Selecção Nacional, com 96 internacionalizações e 32 golos marcados. Nunca o seu profissionalismo, a sua entrega e a sua total disponibilidade estiveram em causa. A maior preocupação, aparentemente, é analisar as suas atitudes sob uma lupa grande angular receptiva ao mais insignificante pormenor. Queremos que ele seja um dos melhores jogadores do mundo, se não o melhor, e em simultâneo, um rapaz com a inocência e afabilidade de um santo. Todos os extraordinários talentos, indiferente da especialidade, têm - terão que ter - uma boa dose de egocentrismo. É parte natural do «make-up», sem o qual, porventura, não seriam extraordinários. Ou aceitamos essa característica do seu carácter ou, então, será melhor dispensar dos seus serviços.

Quanto a António Simões, também é legítimo questionar quanto das sua críticas são assentes nas suas reconhecidas simpatias clubísticas. Dando ao trabalho de pesquisar os arquivos de futebol, seria possível apontar muito mais graves situações em que ele não sentiu a mesma urgência em vir a público criticar. Vem-me prontamente à ideia uma das ocorrências mais insólitas, mais absurdas nos anais históricos do futebol mundial; um capitão benfiquista com a fotografia da filha na braçadeira em vez do emblema do clube. Onde estava, então, a indignação de António Simões?  


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8 comentários:
De Yuri a 15 de Junho de 2012 às 23:20
Boas

Tal como refere, Simões, como todos nós, tem direito a ter a sua opinião. Contudo, o timing para tecer considerações deste teor são ridículas.
Aliás, pessoas com determinadas responsabilidades dentro do contexto futebolístico deviam ser mais cautelosas a fazer determinadas análises.
Posto isto, e não estando em causa o facto de Ronaldo ter vestido a nossa camisola, pois eu valorizo somente a camisola, e não quem a veste, devo dizer que Cristiano caminha a passos largos para se tornar num atleta que cria anticorpos na maioria das pessoas. A história que ele próprio criou de que os ódios gerados são inveja por ser rico, bonito e bom...prova a falta de carisma e a ausência total de bom-senso. Quando fala na dose de egocentrismo necessária, pode até ter uma...dose de verdade, mas ele não doseou nada, ele ficou com tudo. Nem o queria comparar com Messi, o qual considero o melhor, mesmo que eu esteja sempre a torcer pelo sucesso de Ronaldo, pois salta à vista que encara o fenómeno da popularidade de um modo radicalmente oposto. Seria incapaz de assobiar Ronaldo num jogo, tal como seria incapaz de assobiar o Sporting...tal como seria incapaz de desejar uma derrota do Sporting ou de Portugal (a não ser q jogasse com o Sporting :) ) mas o jogador pôs-se a jeito para todos aqueles que o fazem com a maior das naturalidades. Ainda vai tendo, felizmente, a sua larga legião de fãs mas, já que tem tanto de bom jogador com de amor próprio, devia ter cultivado melhor a sua relação com o que o rodeia. Poderia estar a dar exemplos toda a noite de atitudes deploráveis mas, para não ir mais longe, a analogia que fez com Messi e a Copa América, após os falhanços no jogo com a Dinamarca, denotam um desnorte e um trauma relativamente ao argentino que o deixam demasiado fragilizado. Só me resta desejar-lhe o melhor, porque isso será o melhor para Portugal.
SL


De Rui Gomes a 15 de Junho de 2012 às 23:59
Concordo com muito do que explanou. Como em tudo na vida, há sempre aspectos discutíveis que variam mediante as opinões de cada um. O meu objectivo primacial até nem é defender Ronaldo, mas sim sublinhar a menos salutar forma de estar de alguns portugueses, neste caso António Simões. Muito sinceramente, nem compreendo a que propósito vem esta entrevista dele e, claro, com o inevitável timing. Ele acusa outros de egocentrismo. Será que ele próprio não poderá ser acusado do mesmo ? A maioria de nós andamos atentos e esta postura do jogador português não é novidade alguma. É verdade que desejava que fosse outra, mas aprendi a focar-me nos seus enormes talentos futebolísticos e deixar à parte o restante, menos relevante. Até vou mais longe ao reiterar que a braçadeira não lhe derveria ter sido entregue tão cedo. Mas é facto consumado e é inútil massacrar a questão. Pessoalmente, dou preferência ao jogo de Cristiano sobre Messi. Estilos diferentes em circunstâncias ainda mais diferentes. Quanto à vida pessoal deles, não há comparação. O Ronaldo sempre atraiu muito mais atenção, até pelo seu perfil físico comparado ao do Messi. O sensacionalismo anda sempre à volta dele e muito menos à de Messi. Ele melhorou com o passar dos anos, mas ainda é evidente que não tem a formação à raiz para lidar com muito do que o confronta diariamente. Pode ser apenas a minha maneira de ser, mas eu dou menor importância a esses factores e andei no futebol muitos anos e lidei com muitos e enormes egos futebolísticos. Por fim, tenho fé que ele ainda vai «explodir» neste Euro. Para o bem de Portugal espero que sim.

Cumprimentos


De JP a 16 de Junho de 2012 às 13:46
António Simões, o Adjunto de Queiroz, His Masters Voice? Capiche?


De Rui Gomes a 16 de Junho de 2012 às 14:13
Excelente observação. Nem me lembrei desse pormenor. Faz perfeito sentido.

Cumprimentos.


De A. Santos a 16 de Junho de 2012 às 14:38
Só espero que Paulo Bento tenha perfil psicológico para aguentar com todas estas "investidas". Um dia quando Mourinho ocupar o cargo de seleccionador nacional, porque o vai ser seguramente, vou pagar para ver se estes Srs. têm a ousadia de meter o bedelho em assuntos da Selecção. Uma coisa tenho eu a certeza! Sem resposta não ficam, e o mais certo é levarem uma lição de competências na área do futebol...

S.L.


De Rui Gomes a 16 de Junho de 2012 às 16:11
Esperamos que sim. No todo, é uma situação absolutamente ridícula e em evidente má fé. Outro leitor ainda adiantou uma outra vertente relevante. Simões foi adjunto de Queirós e, naturalmente, surge também em apoio ao ex-patrão. Que quadrilha !!!


De A. Santos a 16 de Junho de 2012 às 16:40
É verdade... Parece que as pessoas ficam ressabiadas e á espera da carne podre, para se poderem refastelar num ódio incompreensível. Vamos esperar pelo final da campanha, e depois fazer uma análise correcta das pessoas envolvidas na mesma. É assim que deve ser... Não sei se reparou nos fantásticos adeptos da selecção da Irlanda, que mesmo perdendo, mostram uma alegria enorme no apoio á sua selecção, dando lições a muita gente.

Cumprimentos


De Rui Gomes a 16 de Junho de 2012 às 17:19
Tem razão, a atitude dos irlandeses foi impressionante. Nem quero pensar o que seria com Portugal a levar 4 da Espanha ou de qualquer outro. Mentalidades diferentes.

Cumprimentos.


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