06 Jun 12
A bola
Helena Ferro de Gouveia

Aviso à navegação: sei que não vou fazer muitos amigos com este post, mas dane-se.

 

Abriu oficialmente a silly season, pelo menos a acreditar no que se vê nas televisões portuguesas. Onde quer que sintonize a selecção que nos "representa" - ainda ninguém me convenceu porque é tenho de me sentir mais ou melhor representada por uns miúdos mimados e com maus cortes de cabelo do que pelos Galandum Galundaina ou pelo Rui Zink - abre noticiários pelos motivos mais estapafúrdios, os desgraçados dos jornalistas fazem directos vazios de conteúdo, tão vazios que chegam a ser confrangedores. Discutem-se temas "profundos" como os carros dos jogadores, o hotel dos jogadores, os gastos dos jogadores e o Ronaldo, qual Atlas com Portugal às costas. Metade do país está com os olhos embaciados pelo sentimentalismo patriótico sem solidez. E o Euro ainda nem começou.


Portugal, país sem grandes ideais e sem grandes causas, vai suprimindo o défice de heróis e de grandeza por interpostos jogadores de futebol.

Enquanto isso a selecção alemã, que não abre noticiários, nem cultiva o vedetismo, visitou, longe das câmaras e das objectivas, o campo de concentração de Auschwitz e tem-se multiplicado em criticas ao regime ucraniano e à forma como Julia Timochenko é tratada na prisão. Aqui não houve corridas pela selecção, nem o avião da Mannschaft foi acompanhado ao minuto como se do Papa se tratasse. Apenas se exige que o onze branco e negro seja digno de envergar as cores nacionais, o que já não é pedir pouco. É a velha questão do Schein e do Sein.

 

Desejo a maior sorte à equipa portuguesa, porque gosto de futebol e de jogos bem disputados, mas peço aos colegas jornalistas que não lhe façam a estátua - apesar da musculatura do Ronaldo ser de fazer chorar de desejo a humanidade - porque eles ainda não a merecem.

 

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10 comentários:
De Edmundo Gonçalves a 6 de Junho de 2012 às 14:54
Olhe, aqui fez um amigo!

Plenamente de acordo.


De Outside a 6 de Junho de 2012 às 21:12
Fez pelo menos um amigo, ou encontrou quem tenha a mesma empatia neste contexto.

Parabéns pelo post.

Fique bem.


De Pedro Correia a 6 de Junho de 2012 às 23:20
Muito bem, Helena. Esta histeria mediática, repleta das mais minuciosas minudências sobre os bastidores dos bastidores dos bastidores da selecção portuguesa antes de o conjunto comandado por Paulo Bento ter revelado fosse o que fosse digno de mérito (pelo contrário, os jogos de preparação tiveram balanço negativo, com um empate a zero com a modestíssima Macedónia e uma derrota por 1-3 com a mediana Turquia que nem se qualificou para o Europeu) pode não revelar quase nada do estado actual do nosso futebol mas revela quase tudo do estado actual do nosso jornalismo.


De Helena Ferro de Gouveia a 6 de Junho de 2012 às 23:27
Pedro, tem havido momentos "jornalísticos" verdadeiramente surreais, como este take da Lusa:

"Kiev, 06 jun (Lusa) – Um porco “adivinho” com 380 quilos, chamado Funtik, imitará a partir de 8 de junho, em Kiev, o famoso polvo Paul na hora de prognosticar os resultados dos jogos do Campeonato Europeu de Futebol.
“O singular e único porco profeta, um autêntico porco ucraniano, adivinho e profundo conhecedor dos segredos do futebol, residirá num lugar especialmente preparado no centro de Kiev”, informou a Câmara Municipal da capital ucraniana.
Funtik chegou hoje à Praça da Independência de Kiev como se se tratasse de uma estrela de cinema, escoltado por vários carros da polícia e protegido por estritas medidas de segurança. O porco, que “tem um carácter bom e alegre e, o que é mais importante, gosta de futebol”, realizará os prognósticos diariamente às 16:00 (hora local) a partir de sexta-feira na histórica Praça do centro de Kiev."


De Pedro Correia a 6 de Junho de 2012 às 23:52
Ugh! (e eu sou insuspeito, pois adoro arroz de polvo e polvo à lagareiro)


De Rui Gomes a 9 de Junho de 2012 às 01:51
Cara Helena,

Gostei de ler vo seu post e aprecio muito do que disse. Permita-me alguns reparos de menor consequência: a chamada «silly season», um termo inglés muito mais em voga em Portugal, na realidade, é uma realidade permanente ao longo dos doze meses do ano, em formatos variados, no que ao jornalismo português concerne, em geral, e ao jornalismo desportivo, em particular. Futebol e política, não necessáriamente nessa ordem, são as dinâmicas que maior consumo invocam num mercado superficial e materialista. Muito por isso, não surpreende que um evento da dimensão do Euro precipite um acrescido aproveitamento sensacionalista e a «contribuição» de tantos egos vazios na procura do inevitável protagonismo.
Tenhoponderado bastante a questão, desde que foi anunciada a referida visita ao infâme Auschwitz e sinto alguma dificuldade em distanciar a percepção de indícios de cumprimento de protocolo, sublinhados por ondas políticas. Curioso que esse mesmo curso tenha sido igualmente percorrido pelas selecções da Holanda e da Itália, entre outras. Notei, também, que tudo foi cuidadosamente filmado e noticiado. Por fim, e com os respectivos prós e contras, entendo que nada serve a comparação entre as mentalidades e culturas portuguesas e alemãs, apenas por serem distintas. Fui casado com uma alemã da cidade de Hannover e por esse e outros motivos já tive ocasião de passar muito tempo nesse país. Acrescidamente, sou muito português mas tenho permanecido uma vida quase inteira longe da minha pátria. As supracitadas combinação de circunstâncias proporcionam-me, acredito, uma perspectiva objectiva das diferenças entre povos. Não me escandalizo facilmente com os excessos folclóricos lusos e não me impressiono, de igual modo, com a conduta metódica alemã, no futebol ou em qualquer outro sector da sociedade.
Desconhecia a Helena e tive o cuidado de visitar o seu blogue, algo que tenho intento repetir no futuro.
As minhas mais cordeais saudações e o meu perdão por este excessivamente longo comentário.
Rui Gomes


De Helena Ferro de Gouveia a 10 de Junho de 2012 às 17:28
Obrigada pelo comentário Rui.

Estou consciente que a silly season às vezes está mais presente do que devia, em particular no jornalismo desportivo, onde há alguma confusão entre informação e entretenimento.

Quanto à visita a Auschwitz, não foi meramente protocolar. Houve um desejo expresso pelos jogadores ( por exemplo o Klose, que é polaco de nascimento, fez questão de participar na visita ) de o fazer. Na Alemanha, sabe-o certamente muito bem, há a percepção muito clara ( pelo menos por parte de alguns futebolistas) de que se os jogadores são modelos para muitos jovens, logo devem dar exemplo de cidadania e de consciência histórica.

Cumprimentos

Helena


De Rui Gomes a 10 de Junho de 2012 às 17:46
Os sentimentos de Klose e ainda de Pudolski, são compreensíveis, com certeza.

Cumprimentos

Rui

P.S. Diga à Matilda (salvo erro), que continue com a sua muito inspirada actividade artística.


De Rui Gomes a 10 de Junho de 2012 às 17:54
Perdão, «Matilde» e não «Matilda».

Rui


De Rui Gomes a 9 de Junho de 2012 às 05:04
P.S. Agradeço que ignore alguns lapsos ortográficos provocados pela hora tardia (ainda é) e a minha usual escrita «em cima do joelho».


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