27 Mai 12

 

O guarda-redes tem uma missão particularmente inconciliável no futebol. Um momento é herói, passados meros segundos é vilão. A exigência física e psicológica que enquadra a sua actividade é incomparável à de qualquer outro jogador. Sob constante pressão, todos os seus movimentos são examinados minuciosamente e um qualquer desacerto pode ser fatal, tanto para si como para a sua equipa.

Comecei a minha modesta carreira futebolística precisamente como guarda-redes. Com um 1,88 m de altura, ágil e bom atleta, tudo indicava que possuia os indispensáveis dotes para esse fim. Só anos mais tarde, já como dirigente, é que me foi possível identificar a falibilidade que sempre me iludiu enquanto jovem. Tive ocasião de trabalhar com um sábio treinador que me elucidou: «um guarda-redes que não tenha «pancada» - o seu termo para uma personalidade excêntrica e temerária - nunca dará um bom guarda-redes». Deduzi eu, então, que quanto maior a «pancada», melhor o guarda-redes, mas, aparentemente, até nisso há limites.

Uma retrospectiva do futebol nacional rapidamente confirma a exactidão deste discernimento; só no Sporting tivemos diversos casos exemplares que me vêm prontamente à ideia: o histórico Carlos Gomes e o saudoso Vítor Damas, ambos com vincada excentricidade, Ricardo - quem mais se ofereceria para marcar aquele célebre penálti no Euro 2004 ? - e aquele que mais me marcou pela sua espectacular extroversão, já para não mencionar o seu enorme talento, o lendário Peter Schmeichel. Sempre que o seu nome vem à conversa, a primeira imagem que me surge é a de Rui Jorge, entre outros, a escudar-se da sua fúria, por qualquer erro cometido ou golo sofrido. Não há muito tempo tive ocasião de trocar impressões com o actual seleccionador nacional do sub-21, sobre o gigante nórdico. Com um grande sorriso, disse-me ele: «grande profissional, excelente colega no balneário, humilde e brincalhão, mas quando entrava em campo transformava-se, era um intenso competidor que não admitia falhanços».

O nosso Rui Patrício também chama a si uma boa dose de «pancada» que ainda não terá atingido total maturidade. O seu semblante nos momentos cruciais, a sua ainda por aperfeiçoar arte de repreender os colegas, a sua temeridade e, sobretudo, o seu «sacríficio» em passar a bola à mão, quando o seu primeiro instinto, hoje e sempre, é de a pontapear para os céus ou, em última instância, para a bancada central.

O guarda-redes de futebol é uma espécie de jóia na coroa real, alvo da cobiça de todos os inimigos e defendida até à morte pela guarda da corte. Para quem desejar passar pela experiência, é aconselhável determinar primeiro o respectivo grau de «pancada»; uns têm, outros nem por isso.


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5 comentários:
De Alexandre Poço a 27 de Maio de 2012 às 15:35
Caro Rui Gomes, não poderia estar de acordo. Fui guarda-redes durante 8 anos e sempre pensei que guarda-redes que é guarda-redes tem de ter uma "pancada". Posso dizer que a minha era sair muito da área nos cantos a favor da minha equipa, ia quase até meio do meu meio-campo (uma vez, sofri um golo à custa disso). Pelo contrário, quando me encontrava frente-a-frente com um avançado isolado e para fúria dos adeptos da minha equipa, fica muito agarrado aos postes em vez de ir fazer a "mancha" aos pés do adversário. Sempre achei que era melhor guarda-redes entre os postes, que fora deles. Já não sou do tempo do Damas, mas se há guarda-redes que me marcou e ainda hoje, considero um dos melhores de sempre e o melhor a actual no Sporting, foi o nosso Peter Schemeichel, "The Great Dane"! Aquela postura em campo era para mim um símbolo, pois nessa altura comecei a jogar futebol (e a ser guarda-redes).

Uma posição ingrata, pois como se costuma dizer, o guarda-redes é sempre mais culpado por um "frango" do que um avançado que de baliza aberta, envia a bola para a bancada.

SL


De Rui Gomes a 27 de Maio de 2012 às 17:00
Caro Alexandre, é grato ter um colega guardião no grupo. Comecei no futebol como guarda-redes e acabei na mesma posição, já com mais idade, e em jogos de veteranos. Cheguei a jogar o com o Eusébio, Simões e outros, tudo em amistosos. Passei muitos anos como avançado, pela minha versatilidade atlética e velocidade. Cheguei a defrontar o Damas, em Alvalade, mas como dirigente e não jogador. O Peter conheço bem, mas o Carlos Gomes não.Penso que o problema do Alexandre era o mesmo que o meu, não éramos suficientemente temerários. Da minha parte pelo menos, era destemido mas não «maluco» e aí reside a diferença entre os bons e os outros. Agora, por analisar muito bem o jogo à minha frente, coordenava a defesa muito bem e não me cansava de os fazer sentir que a sua maior prioridade era proteger a minha pessoa.hehehe Cumprimentos.


De pedro oliveira a 27 de Maio de 2012 às 16:11
Caro Rui Gomes,

Venho muitas vezes até aqui para ler aquilo que escreve.
Julgo que só temos a aprender com pessoas que têm mais experiência e experiências diferentes das nossas.
Gostei deste «post» por aquilo que nos conta de si próprio enquanto desportista e pessoa, gosto de experiências pessoais contadas na primeira pessoa do singular (biografias ou pequenos apontamentos biográficos neste caso).
Gostei, também, da referência ao Grande (pequeno em tamanho) Rui Jorge, jogador que vi uma vez na para paragem de autocarro em Telheiras à espera de transporte para o estádio José de Alvalade.
Hoje (ontem) o capitão da selecção portuguesa pavoneia-se em campo com umas botas cor-de-rosa, uma braçadeira azul e branca (botas e adereço braçal da Nike) e sai do estádio num Lamborghini Aventador (cerca de 200 000 euros) e o povo (o povinho português) acha isso normal.
Eu gosto dum capitão que me represente, Cristiano Ronaldo, não o é, nem na atitude, nem na entrega, nem na ostentação, nem em resultados... deve ser o único bota de ouro do mundo que joga contra a Macedónia e em cinco remates que fez à baliza não consegue acertar com ela uma única vez... antes um Rui Jorge de autocarro que um CR7 de Lamborghini.
Quanto a Rui Patrício, compreendo que pelo facto de viver no Canadá, não tenha acompanhado Rui, esta época.
Vi todos os jogos em Alvalade, para todas as competições e julgo (tenho a certeza) que o nosso Rui é hoje um guarda-redes quase completo, muito bom em todos os aspectos, inclusive, a sair a cruzamentos, a sair a jogar com os pés e a defesas dificílimas sob pressão, em Manchester, por exemplo.
Quanto à questão da pancada é relativa, para o ano teremos Rui (espero que sim) Marcelo que tem pancada (uma grande pancada) e Vítor Golas, que acompanho desde os juniores (foi campeão com Adrien, Tiago Pinto e Cédric, por exemplo) um guarda-redes, sóbrio, sem pancada, mas com uma eficácia notável.


De Rui Gomes a 27 de Maio de 2012 às 17:30
Caro Pedro Oliveira,

Fico grato pela gentileza das suas palavras. Vou tentar continuar a ser merecedor do seu apreço e dos leitores em geral. Diversos pontos que abordou;
Fui sempre um grande admirador do Rui Jorge, já tive o prazer de privar com ele algumas vezes e até tenho uma fotografia nossa, juntos, no meu escritório. Em conversa casual e em alguns escritos que já plubiquei, considero-o o maior erro da carreira desportiva de Pinto da Costa, para benefício do Sporting. Devo esclarecer, antes de mais, que a referida «pancada» é de certo modo um elogio. Muito simplesmente, descreve aqueles que não medem as consequências às suas próprias pessoas em prol da equipa. Eu, a exemplo, como guarda-redes, tinha tudo menos a temeridade de me sacrificar a todo o custo e essa característica distingue os bons dos inferiores, que eu fui, nessa posição. Gosto imenso do Rui Patrício. Tenho criticado o Alex Ferguson por ter optado pelo De Gea, quando eu sinto que o Rui é superior. Ele tem evoluído em anos recentes e, na minha modesta opinião, estará a 80% do curso para se tornar num jogador excepcional. Comentei o seu gosto em pontapear a bola com humor, mas não deixa de se aproximar da verdade. Ele teria beneficiado imenso se tivesse tido a felicidade estar no Sporting ao mesmo tempo que o Peter Schmeichel que, indiscutivelmente, foi um dos melhores de todos os tempos e, especificamente ao que concerne por a bola em jogo, quer com as mãos, quer com os pés, o melhor de todos. O Rui Jorge, nas nossas conversas, e até o Beto, referia muito essa precisão dele.Curiosamente, um guarda-redes menos temerário (o golo do Luisão naquele famoso jogo que nos tirou o título), mas igualmente excelente a por a bola em jogo, foi o Ricardo. Penso que é um dos aspectos do Rui que mais sobressai em necessidade de melhoramento. Se o Sporting andasse na montra da Champions, estou convencido que ele já teria saído. Quanto ao Cristiano, admiro-o imenso enquanto jogador mas concordo consigo em que a braçadeira de capitão não lhe compete, entre outros motivos, para não criar acrescida pressão. É um jogador de molde moderno, com valores em linha dos tempos de hoje. Concordo também consigo quanto ao Marcelo, que evidencia uma boa «pancada» e que me deixa a ideia que se o Rui saisse, ficaríamos bem servidos. Do que vi do Vítor Golas, também gostei. Penso que salvo a surgir algum movimento com o Rui, ele irá mais um ano para a equipa B. Ser o terceiro da equipa principal não lhe proporcionará a muito preciosa rodagem e, com ela, a experência em jogo. Veremos o que a SAD tem em mente. Apesar da minha distância da pátria, desde criança, sempre me manti muito próximo de Portugal, nomeadamente através do futebol. Já levei diversas equipas minhas a Alvalade e aos principais palcos do futebol português. Isso proporcionou-me um vasto leque de conhecimentos, que ainda hoje prezo, e acesso moderado ao foro interno do futebol português. Hoje estou afastado, mas os contactos mantêm-se. Muito por isso colaboro com este blogue e escrevo no jornal do Sporting, entre outras actividades. Como ponto final deste já excessivamente longo escrito, penso que o Adrien será uma mais-valia, se ficar no Sporting e tiver a oportunidade jogar. Ainda tenho algumas dúvidas. A lateral direito, sinto confiança que entre o Arias, ainda em progresso, e o Cédric, estaremos razoavelmente bem servidos. Precisamos, indiscutivelmente, de um central «patrão», tipo André Cruz, mas onde é que ele está e a que preço.

As minhas mais cordeais saudações.


De Rui Gomes a 30 de Maio de 2012 às 17:09
Caro Pedro Oliveira,

Já teve oportunidade de ler o meu recente post «Por onde andam eles ?...Parece ser do tipo que lhe agradará.

Cumprimentos.


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