06 Jan 12

 

O primeiro jogo do Sporting que vi ao vivo realizou-se fora de Alvalade, em Portimão, e acabámos por perder (já o primeiro jogo no nosso estádio, esse deu uma vitória por sete a um, frente a uma equipa das redondezas). Procuro a data do jogo de Portimão num pequeno caderno onde nessa época ia apontando tudo jornada após jornada. E lá está, a quatro de Abril de 1982. Íamos bem lançados para ser campeões, mas durante cerca de um mês trememos. Foi a nossa pior fase num campeonato que eu acompanhava com a certeza de que o título não nos escaparia. Já no Verão de 1981 eu pensava assim, com o que ouvia na televisão e lia nos jornais sobre o estágio da equipa na Bulgária, ainda por cima com um novo guarda-redes que alguns jornalistas diziam ser capaz de fazer defesas impossíveis.

Vejo agora no pequeno caderno com mais de um quarto de século a sucessão de maus resultados que poderiam ter deitado tudo a perder. Um empate em casa com o Espinho, uma derrota no estádio do Boavista, depois uma vitória sofrida em casa (com a tal equipa dos sete a um apalavrados pelo destino para daí a quatro anos), até que chegou a visita a Portimão, vinte quilómetros abaixo da serra onde eu morava. Lembro-me de a minha mãe me ter dado dinheiro e de me falar em poupar nesse dia o mais que pudesse porque o bilhete ia ser bem caro, se eu conseguisse arranjá-lo. Fui para o estádio sem certezas, ainda por cima gastando logo uma parte no autocarro porque era época de férias das aulas num liceu de Portimão e o passe não contava nesses dias.

Eu passava muitas vezes perto do estádio do Portimonense no caminho para o liceu. Era um lugar tranquilo, mas naquela tarde de domingo uma multidão tinha mudado tudo. Tanta gente por causa da visita do Sporting... E as bilheteiras fechadas. Já não havia bilhetes quando cheguei, e isso por momentos fez-me entrar em pânico. Mas de repente apareceu-me alguém pela frente com um maço de papelinhos. Bilhetes… Só podia ser, não ia andar ali um tipo a vender rifas ou coisa do género… Era mesmo bilhetes, e ele pedia trezentos escudos por cada um. Pensei que não teria tanto dinheiro, mas lá contei e a verdade é que tinha, mesmo quase não dando para mais nada, nem para o autocarro, nem para comer alguma coisa de jeito. Decidi depressa. Comprei um bilhete e corri para a entrada de uma zona onde se ficava de pé, lembrando-me do que tinha ouvido falar de bilhetes falsos e quase tomado pelo medo de ser apanhado com um. Mas consegui entrar, e ainda a tempo de ver a parte final do aquecimento dos jogadores.

Pouco depois vi o guarda-redes húngaro, muito magro, de cabelo comprido e com um bigode enorme. Aproximava-se da baliza atrás da qual eu me tinha conseguido colocar, junto ao gradeamento, a mesma baliza onde tinha acabado de fazer o aquecimento o guarda-redes do Portimonense. A claque do Sporting estava por perto e por isso a agitação era enorme. Tinha de ter atenção, ainda por cima tendo ficado junto ao gradeamento, mas não me preocupava. Estava a ver o Sporting ao vivo pela primeira vez e isso é que me importava. Nem o Portimonense me preocupava.

Eu tinha a certeza de que ia colocar no pequeno caderno mais uma vitória do Sporting, para confirmar a do fim-de-semana anterior frente à equipa da vizinhança e acabar definitivamente com a fase má. Porque acreditava que estávamos na caminhada para mais um título de campeões. Só que o jogo começou e o Sporting não jogava. O Oliveira estava de fora. O Manuel Fernandes, o Jordão, o Lito (que duas décadas depois haveria de ir bater com o carro dele no meu, no Estoril), o Carlos Xavier (que um pouco antes do desastre com o Lito, no casamento de um amigo comum, me tiraria uma fotografia quando já estava um bocado alegre e depois ao ver-se a foto lá estava ele, porque tinha a máquina virada para o próprio rosto), o Mário Jorge, o Eurico… Simplesmente não jogavam, por mais que o treinador inglês, Malcolm Allison, lhes gritasse lá de longe, do banco dos suplentes.

Os jogadores que jogavam eram os do Portimonense. E eu, agarrado ao gradeamento, a dois metros do guarda-redes Meszaros (de quem já sabia dizer bem o nome, depois das confusões iniciais), nem queria acreditar. E apareceu um penalty contra nós, que eu pensei que ele mesmo enervado com o comportamento dos colegas haveria de defender sem problemas. Mas não defendeu. O penalty foi marcado por um brasileiro pequenino e de cara grande, muito redonda e com barba. Chamava-se Tião, como um dos bonecos dos livros do Tio Patinhas que eu começava a deixar de ler. Mesmo assim não desesperei, pensei que com o decorrer do jogo haveríamos de recuperar. Mas sobre o intervalo apareceu um jogador alto do Portimonense, chegado da Bélgica, um português que por lá tinha andado emigrado e tinha um nome que parecia estranho para jogador de futebol, Norton de Matos. Só que desenrascava-se a jogar, principalmente quando o punham a avançado. Nessa jogada, apanhou a bola à entrada da área, andou às voltas e disparou. O Meszaros ia defender, voltei a pensar, mas ele não defendeu. E de repente estávamos a perder por dois a zero.

Era a primeira vez que eu via o Sporting a jogar sem ser na televisão, e íamos perder. Como as coisas estavam, como depois recomeçavam na segunda parte, senti que íamos perder… E foi assim. O jogo ficou em dois a zero, e nem foi azar, porque nesse domingo à tarde a equipa do Sporting não parecia a mesma que ia à frente do campeonato.

Lembro-me de voltar para casa à boleia, fazendo contas, nos meus catorze anos, aos pontos e aos jogos que nos faltavam. E de pensar em como haveríamos de acabar com aquela fase má em que só conseguíamos ganhar à equipa da vizinhança. Mas mesmo assim os maus resultados continuaram, primeiro um empate em casa com o Leiria e depois outro em Guimarães. Foram seis jogos do campeonato em que só ganhámos um, precisamente o jogo em que o nosso capitão levou um murro do guarda-redes adversário, dentro da área, murro que valeria um dos dois penalties assinalados e concretizados pelo Jordão.

Mas tudo acabou por correr bem. Voltámos às vitórias, duas seguidas, ambas por três a zero, em casa com uma equipa chamada Amora e depois no Estoril, onde garantimos o campeonato. O meu primeiro campeonato, porque antes eu pouco ligava a futebol. No único jogo que vi ao vivo, quando o Sporting foi jogar perto da minha casa, perdemos. Mas fomos campeões, como eu sempre acreditava a cada jogo que apontava no pequeno caderno, mesmo que por vezes não apontasse uma vitória.

 

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2 comentários:
De Pedro Correia a 6 de Janeiro de 2012 às 23:48
Saborosas memórias de um campeonato inesquecível, António.


De José Navarro de Andrade a 7 de Janeiro de 2012 às 14:42
Fantásticas memórias!


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