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És a nossa Fé!

A Mulher de César

 

Há cerca de 20 anos ia muito ao José de Alvalade. No princípio da década de 1990 abandonei as bancadas. Foi por causa de um Sporting-Porto, que terminou 0-0. Foi um jogo sem casos, sem grandes hipóteses de golo, que me lembre. Disputado, rijo, não particularmente emotivo. Mas saí do estádio desaustinado. Pois passara o jogo inteiro a atentar como o árbitro - do qual não me lembro - controlava o jogo, protegendo o Porto com sageza, nas pequenas faltas e picardias a meio campo com que se ia impedindo o nosso Sporting de jogar. Sabido, veterano, o árbitro deu ali uma lição, exasperante, de como atingir os objectivos em surdina. E isto são coisas que se percebem bem mais no estádio do que numa TV, esta sempre procurando a bola ou, nas repetições, os casos espectaculares. Já cá fora, e num estado de nervos tal que corporizava o velho mito do benfiquista que bate na mulher quando o clube perde, jurei nunca mais voltar ao futebol. Para acabar assim? Não valia a pena, não vale a pena. Só uma vez quebrei essa jura, num

 

 

Sporting-Real Madrid. Era por demais glorioso (e tão mais poderia ter sido, tamanha era a nossa equipa) para que eu faltasse. Depois emigrei. Nem me pude despedir do velho estádio. Já neste século fui conhecer o novo, num Sporting-Inter Milão da liga dos campeões. Mas foi só isso.

 

Vem esta memória pessoal para me apresentar. Eu sou daqueles que as trapalhadas dos árbitros afastaram dos campos. Ainda assim custa-me muito este constante gemer com as arbitragens, como se estas explicassem tudo. As derrotas são sistematicamente reenviadas para os árbitros. Nem tanto ao mar nem tanto à terra ...

 

Vivo em África. E por cá a crença nos feitiços é muito maior do que os bruxedos e quejandos das poucas aldeias portuguesas. Deles sei algo, até por profissão. Acreditar nos feitiços é acreditar que tudo o que mau ou menos bom acontece é por culpa de alguém, de um parente, vizinho, de um antepassado, de um malevolente que contra nós actuou. É uma crendice. Mas mais do que isso é uma maneira de ver o mundo, uma crença que as causas do mal são as pessoas mal-intencionadas. É uma crença nos poderes dos homens. Uma descrença no azar. E uma tendencial desresponsabilização, individual e colectiva. Por isso tudo, se calhar algo externo a um blog sobre o nosso Sporting, torço o nariz ao constante queixume sobre os árbitros. Alguns serão malandros, outros timoratos, outros influenciáveis, outros nem tanto. Todos erram, claro. Mas os gemidos são demasiados (e de demasiados lugares - do Minho à Madeira, e de quando em vez vêm dos Açores). E parecem-me os queixumes contra os feiticeiros que tanto mal causam. Têm, tantas vezes, a mesma lógica.

 

Mas ainda assim espantaram-me as imagens do início do último Porto-Sporting, aqueles afagos todos entre árbitro e jogadores do Porto. Sim, o dia era também de festa. Sim, é normal que os homens da bola se conheçam, se simpatizem, se cumprimentem. Não, não acredito que um árbitro só por afagar languidamente os másculos e tatuados novos campeões vá propositadamente expulsar o nosso Capitão América. Mas é um árbitro. Em público, no campo, pelo efeito que a sua postura tem nos jogadores e no espectadores, dele se exige alguma parcimónia. É tal e qual a história da pobre da "mulher de César", obrigada a parecer casta mesmo que seja casta. Em assim sendo é óbvio que aquele árbitro ainda não aprendeu a ser árbitro. Ou então foi vítima de algum bruxedo.

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