07 Abr 12

Locutores e comentadores da rádio e da televisão são unidades jornalísticas autónomas que fazem parte da experiência desportiva e, pela sua função, assumem o cometimento com a audiência de informar e comentar com exactidão, imparcialidade e integridade, requisitos tão essenciais à sua credibilidade, como instrumentos esterilizados a um cirurgião. Salvo em casos em que o alicerce da programação assenta no debate entre adeptos, provisoriamente instalados em painéis para discussão improvisada, o comentador tem o dever de moderar a sua analogia, enquanto profissional, a fim de preservar a objectividade e fidedignidade do seu desempenho jornalístico, indiferente das suas tendências naturais para uma qualquer coisa. O jornalismo, como profissão e arte, é governado por regras de conduta que não dispõem de precisão científica. Muito por essa implícita latitude, o desempenho não se ajusta meramente à transmissão de opiniões, reacções e ideias, sem primeiro consciencializar a veracidade da informação em que a expressão é fundamentada. Esta, para ter equilíbrio e probidade, não deve ser indevidamente influenciada por factores partidários que comportam, por inerência, o potencial para a desvirtuação desportiva e o desrespeito pela propriedade da audiência. João Gobern, tanto no seu comentário in loco como na sua palavra escrita, sempre transpirou a sua extraordinária inibição em encontrar a imunização contra o seu fervor clubístico, consideração que há longo tempo o deveria ter desqualificado da participação num programa como «Zona Mista», componente da televisão pública que aspira aos ideais de jornalismo no comentário desportivo.


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17 comentários:
De Pedro Correia a 7 de Abril de 2012 às 14:43
O problema, caro Rui, é que isto anda tudo muito confundido. Quando eu comecei a ver futebol, e a interessar-me pelas coisas do futebol, havia excelentes comentadores que faziam tudo já não digo para ser isentos mas para parecer isentos. O Carlos Pinhão era benfiquista mas escrevia como se o não fosse, o Vítor Santos era do Sporting, mas também escrevia como se o não fosse.
A partir de certa altura os órgãos de informação passaram a privilegiar os comentadores de emblema e cachecol. Houve até uma altura em que a palavra de ordem parecia ser esta: quanto mais fanático e sectário, melhor. Dava "boas audiências" e o resto não interessava.
Assim se formou uma geração de jovens espectadores fanatizados, cada vez mais sectários, incapazes de reconhecer mérito a uma equipa adversária, adoptando como lema frases do género "ou vai ou racha". Tudo porque dava jeito às sacrossantas "audiências".
Eu, no entanto, sou do tempo em que conseguia aprender a ver e 'ler' futebol pela voz ou pela pena de jornalistas do meu clube (o Fernando Correia, que felizmente ainda anda por aí, é um excelente exemplo disso) ou de clubes rivais (e jamais esquecerei o Pinhão ou até o Alfredo Farinha da era pré-Vale e Azevedo).
Isso perdeu-se. E sou o primeiro a lamentar. Mas o que mais lamento é ver programas como o 'Zona Mista' que pretendem fazer a quadratura do círculo: concicliar o cachecol com a análise objectiva. Isto é um lapidar erro editorial de que o João Gobern acaba de ser vítima agora só porque não sabia que estava a ser filmado naquele momento e teve um impulso descontrolado - que qualquer um de nós no lugar dele teria. Aconteceu agora, como já podia ter acontecido há muito.
Defendo por isso uma clara delimitação editorial, sobretudo tratando-se de um canal com especiais responsabilidades de serviço público, como é a RTP. Pode e deve haver programas com adeptos de clubes. Mas por maioria de razão também pode e deve haver programas sobre futebol feitos por jornalistas, que não esquecem os seus deveres deontológicos de imparcialidade e rigor. Confundir as duas coisas é o pior de tudo. E que acaba por ter os resultados que agora se viram.


De Rui Gomes a 7 de Abril de 2012 às 15:25
Caro Pedro, fundamentalmente concordo com que disse, mas também penso que o gesto do Gobern foi apenas o incendiar do rastilho ligado ao barril da pólvora que já estava cheio, pelos antecedentes. A julgar pelas suas crónicas no Record, ele nunca demonstrou o exigido brilho profissional para escrever com insenção jornalística. No contexto do tipo de programa que pretendiam, será que a RTP apenas errou por escolher mal ou por não alternar
comentadores ?...Não, a decisão foi deliberada por que a marca Benfica vende mais e o escopo era esse, indiferente da falta de integridade e imparcialidade. Se analisar o Trio de Ataque, pese o formato com adeptos, o moderador Hugo Gilberto é, na minha opinião, mais um mau profissional que actua sem o mínimo de isenção. O objectivo destes programas, hoje em dia, é sempre o mesmo; 70% dedicado ao clube da Luz, 20% ao FC Porto e, salvo algum fenómeno mais abrangente, 10% ao Sporting, se for possível. Na sociedade global, sensacionalismo e não qualidade é o que vende mais e os números da audiência é que mandam.

P.S. Estou cada vez mais receoso que é Duarte Gomes o árbitro para o derby. Esoerava Jorge Sousa mas ele apitou ontem.


De Pedro Correia a 7 de Abril de 2012 às 15:58
Humm... Só esse seu PS já dá um 'post', meu caro.


De Rui Gomes a 7 de Abril de 2012 às 16:15
E bastante extenso Pedro. Será que Vítor Pereira vai ter essa indecorosa ousadia ?....Como diz o moto publicitário da Adidas: «Impossivel é nada».


De Jose Manuel Barroso a 8 de Abril de 2012 às 02:22
Tens o meu acordo, quanto à essencia do que escreves. Mas desejo fazer uma precisão:quando um comentador está no estudio, em programa, ELE SABE que está sempre no ar - pq o realizador tem todos nas pantalhas do seu estúdio de realização. Em qq momento, e isso só depende do realizador, qq participante do programa pode ser colocado on. Acontece que o realizador viu o Gobern olhar para o lado, qd o B marcou, e pressentiu coisa a explorar. Colocou-o no ar e assim ele foi apanhado em flagrante delito. Não foi um acaso, em programa não há acasos.


De Rui Gomes a 8 de Abril de 2012 às 06:23
Se me permite Zé Manel, qual foi a intenção, na sua óptica ?...Fiz um programa na televisão durante dois anos e face à rapidez do gesto não sei se terá havido tempo suficiente para o realizador emitir instruções ao operador. Não terá sido uma reacção espontânea do operador ?
De qualquer modo, como já tive oportunidade de adiantar em resposta a outros comentários, duvido que tenha sido im incidente singular que levou a RTP à decisão de o demitir do programa.


De Joao Pedro Lopes a 7 de Abril de 2012 às 20:06
É hipocrisia achar que o que se passou no caso do João Gobern choca com os ideias de serviço público, quando o canal em causa apenas muito raramente toca ao de leve em assuntos do âmbito do serviço público. O facto de os jornalistas assumirem o seu clube e/ou opção partidário (sem carácter obrigatório, como é lógico), apenas traz clareza à discussão pública e foge à hipocrisia de se fingir que não se é o que se é. Acho que a idoneidade e a isenção depende muito mais dos valores de cada um do que de se afirmar ou não as cores que se defende individualmente.


De Rui Gomes a 7 de Abril de 2012 às 23:12
A lógica do argumento ultrapassa-me. Gobern é um profissional da comunicação social, quer como cronista, quer como comentador, seja o programa da televisão pública ou privada. O seu único dever é de desempenhar a função com isenção e integridade,
respeitando a ética da sua profissão e, sobretudo, a audiência. A essência da questão não é apenas o gesto, mas sim a soma do seu contributo ao longo do tempo, sempre sombriado pelas suas simpatias clubísticas. A sua postura só seria justificável se a RTP o tivesse contratado para defender a tese do Benfica e, nesse caso, a entidade assumiria a obrigação de providenciar o mesmo espaço e oportunidade a outros emblemas.
A hipocrisia é toda dele, porque aceitou a missão como comentador objectivo de futebol e não a desempenhava com a imparcialidade exigida. Não tenho conhecimento de causa, mas muito leva-me a crer que a primeira e única queixa que surgiu relativamente à sua postura, não foi o notório gesto.


De Joao Pedro Lopes a 7 de Abril de 2012 às 23:18
E o seu interlocutor tem uma atitude diferente? Ou também é claro que faz o mesmo em relação ao clube que defende, nesse caso o Porto? Fará então sentido o programa e as escolhas? Será o problema individual ou será o problema o conceito? Acho que não se deve discutir formas sem discutir conteúdos.


De Rui Gomes a 7 de Abril de 2012 às 23:33
Concordo parcialmente consigo no que concerne a dúvida sobre o conceito, responsabilidade, neste caso, da RTP. Quanto ao interlocutor em questão, já tive oportunidade de o ver e ouvir em inúmeras ocasiões e só recente, através do debate sobre esta temática, é que vim a saber que ele é simpatizante do clube do norte. Como desportista que sempre fui, a minha única exigência sobre um programa com este formato, é discurso informado, objectivo e imparcial. Nada mais, nada menos.


De Joao Pedro Lopes a 7 de Abril de 2012 às 23:44
Absolutamente Rui. Eu sou benfiquista mas em primeiro lugar sou adepto de desporto, de futebol e de justiça e fair-play. Portanto assino por baixo dessa ideia e sou dos "poucos" que fala contra o próprio clube se se justificar. Só não estou de acordo em relação a essa opinião sobre o Bruno Prata, mas pronto, admito que tenhamos diferentes interpretações da pessoa em causa. Acima de tudo, pelo desporto, subscrevo. Um abraço.


De Rui Gomes a 8 de Abril de 2012 às 00:00
Caro João Pedro, admito agora, face aos diversos semelhantes comentários expressos, que Bruno Prata é, de facto, adepto portista. Nunca me apercebi de tal, porventura pela minha leitura do seu discurso nos programas televisivos.
Foi um prazer «conversar» consigo. É sempre bem-vindo neste blogue, onde se aprecia a opinião informada e construtiva, indiferente do emblema de preferência.

Um abraço.


De paulo marques a 8 de Abril de 2012 às 02:33
o que mais espécie me faz em todo este caso é que se deu o desenrolar de toda esta situação porque foi... inadvertidamente enquadrado pela câmera. para mim é flagrante o arrependimento do ladrão... apenas e só porque foi apanhado em falso!


De Rui Gomes a 8 de Abril de 2012 às 06:11
Como já referi em resposta a outro comentário, embora não tenha conhecimento de causa, penso que esta não terá sido a primeira ocasião que a RTP
recebeu reclamações sobre Gobern. É provável que tenha sido uma acumulação de incidências que precipitaram a decisão.


De Jose Manuel Barroso a 8 de Abril de 2012 às 23:01
Um esclarecimento para todos: não há inadvertidamentes apanhados pela câmara, num estúdio de televisão. Para já,não há apenas UMA câmara, mas várias. Depois, todos os vários participantes (neste tipo de programas) estão sempre dentro da 'visão' das câmaras, visão que o realizador e sua equipa seguem no estúdio de realização. Qualquer gesto pode ser usado num lapso de segundo. No caso do Gobern: ele sabia, REPITO, que esta é a regra, talvez o gesto tenha sido reflexo, mas ele SABIA que o 'big brother' lá estava. Seja qualfor a análise ou a opinião que se tenha,acerca do episódiio, a única que se não pode manter é a do 'inadvertido', da instrução do operador ao realizador, etc, etc. Os participantes naquele programa estão sempre ao palco e visíveis pelo realizador. Não confundir os olhos do realizador com os do espetador.


De paulo marques a 9 de Abril de 2012 às 00:38
eu confesso que não assisto nem nunca assisti ao dito programa, o que só por si, honestamente, me descartaria de comentar o episódio.
nem discuto a questão da imparcialidade, nem do caso de à mulher de césar não bastar ser séria, mas também ter de parecer - numa interpretação mais lata, pelo menos parecer, já nem se exigindo seriedade.
e tendo se passado num canal privado, nem colocaria qualquer questão: tão só deixaria de assistir ao programa, caso fosse assíduo do mesmo - o que não sou.
e tendo sido em canal público, aceito pacificamente que o senhor em causa tenha colocado o lugar à disposição (ainda que por sms...) e que o director de informação o tenha aceite (será que também por sms?).
e nem chega a ser uma questão clubística, como muita boa gente quer fazer crer.
mais acrescento que nada me move contra o senhor.
a questão é: tendo existido o gesto, mas permanecido oculto dos nossos olhares (embora visível por todos os intervenientes em estúdio, inadvertidamente ou não), o senhor em causa despacharia o smszito? o director de informação, indiferente, toleraria o caso, ou daria um raspanete, ou até tomaria alguma medida mais drástica? provavelmente não... mas especulo.

agora, com toda a certeza, digo não há aqui qualquer confusão entre os olhos do realizador e os do espectador (e claro, os do director de informação) perante o que se exige aos intervenientes no dito programa e outros similares: estes têm que dar a ver o mesmo a todos.

teve azar o senhor, portanto, que não lhe ponho em causa a seriedade, nem a paixão, que já lhe ouvi e li muito, concordando ou não, e até me sinto vagamente solidário pelo grito que teve de emudecer, e pelo gesto que teve tanto de repentino, como de furtivo e até rebelde, mas ingloriosamente contido. coisa de fazer mal à saúde.

maior azar, só o do director de informação, que tem agora de esgravatar à cata da agulha no palheiro, de mulher mais séria que a mulher de césar.

saudações cordiais, a duplicar, pelas ausentes do primeiro comentário :)


De Rui Gomes a 9 de Abril de 2012 às 01:07
Caro Paulo Marques, teremos que acordar em discordar, embora não necessariamente em tudo. Além das regras de conduta para um jornalista ou comentador, cuja participação é suposta enquadrar-se nos parâmetros estritamente profissionais e não como adepto em debate improvisado, reitero que muito leva-me a crer que existirá algo mais do que o gesto, relativamente à pessoa e ao seu remunerado préstimo.

Cumprimentos.


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