20 Mar 12

 

Foi há dois anos, aos meus 45, que chegou o diagnóstico, incontornável: geronte. Fui obrigado a recorrer a esta prótese, então receitada só para a leitura. Mas logo me avisaram que a degenerescência seria implacável, continuada. A minha visão diminuirá, exausta, diminui, passo a passo, esbatendo-se gradualmente este belo mundo, se apercebido a cru.

 

Deve ser por isso, pela minha progressiva invisualidade, que hoje pouco percebo dos meus queridos co-sportinguistas. Raiva e indignação por todo o lado, clamores, até vejo publicada (por aquilo a que antes, na ingénua era do meu pai, se chamava "uma senhora") a morada do pobre (e mau) árbitro de futebol Bruno Paixão!

 

Eu, qual Mr. Magoo, não me apercebi de nada, no nevoeiro em que vou vivendo apenas vi uma equipa a jogar fraquito, ao intervalo um belo risco do técnico recém-divinizado, que correu mal (o que não o diminui, pois se quem não arrisca não petisca isso não implica que sempre se petisque). Lá no meio um penalti mais ou menos em cima da linha da área (pois, uma chatice) e um parece-que-penalti esparvoado do João Pereira da cabeça quente. Mais para a frente uma entrada daquelas que costumam levar amarelo e que nos fazem levantar do sofá quando é contra os nossos homens, aos urros a pedir "vermelho, gatuno".

 

No fim, e já em alucinação minha, decerto, pois mais ninguém o refere, imaginei o médico do Sporting a ser expulso. Acordei, estremunhado, com o bizarro sonho. Poderia lá o médico ser expulso, o homem está lá para trabalhar, é aquele que até numa invasão de campo deverá manter a cabeça fria (para cuidar dos feridos, longe vá o agoiro). Mas não, lá no meu estranho sonho, o homem em vez de ser despedido ainda ia a herói.

 

Vou passar a ver os jogos com os óculos postos. A ver se me consigo indignar. Em vez deste cinzento abanar de cabeça. Não com os jogadores, nem com o semi-deus que os dirige. 

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6 comentários:
De Rui Gomes a 20 de Março de 2012 às 04:02
O escrito precipita o debate entre humor de mau gosto e sarcasmo rudimentar. Tanto num caso como
no outro, é recomendável um diagnosticador adequado para evitar a acrescida deteoração da
inerente degenerescência. Esta, é evidente, provoca
um nevoeiro de alucinações que não será rectificado
através de uma mera prótese ocular. Indiferente dos
méritos da discussão sobre determinadas decisões das arbitragens, a raiva e indignação dos sportinguistas tem ampla razão de ser, no contexto
da época, e se isso não é suficientemente esclarecido, tratamento profundo, com ou sem óculos postos, é a ordem do dia. Imaginação fértil é
tão útil quanto o ego inflacionado do autor.


De jpt a 20 de Março de 2012 às 06:16
Rui Gomes o debate "entre humor de mau gosto e sarcasmo rudimentar" não me parece muito prometedor pois os termos opostos muito se aproximam. Mas em havendo tal a propósito deste texto não me parece que deva eu (que o escrevi com o meu ego inflacionado) nela participar.

Permito-me apenas concluir sobre o seu comentário: "Indiferente dos méritos da discussão sobre determinadas decisões das arbitragens, a raiva e indignação dos sportinguistas tem ampla razão de ser, no contexto da época, e se isso não é suficientemente esclarecido, tratamento profundo, com ou sem óculos postos, é a ordem do dia." Depreendo que como temos amplas razões de queixa (o que não discuto) deveremos queixar-nos de tudo. E sempre.

Cumprimentos


De Rui Gomes a 20 de Março de 2012 às 13:20
José Teixeira, há timing para tudo na vida e perante
mais um episódio de insólito protagonismo pelo
apitador em questão, não me parece a ocasião mais
oportuna e construtiva para um sportinguista
adiantar críticas sobre a disposição da equipa e do
seu treinador. Indiferente da nossa menos brilhante
prestação, neste ou em qualquer outro jogo, não
abdicámos do direito de tentar controlar o nosso
próprio destino. Se a derrota é merecida, que seja
apenas pelo nosso demérito ou infelicidade e não
pela indecorosa contribuição de terceiros.Há anos, e
já esta época, que Bruno Paixão tem vindo a punir o
Sporting com a sua invulgar incompetência. Não
errou em todos os lances, admite-se, mas fez o
suficiente, para ser ele, mais uma vez, a decidir o
resultado. O nevoeiro citado terá, porventura,
influenciado a análise à prestação da equipa que,
não sendo brilhante, foi suficientemente válida para
permitir discutir os três pontos em disputa.
O Sporting não tem equipa ao nível que lhe permita
ultrapassar diversidades múltiplas, em simultâneo.
Imagine o possível desfecho se o jogador que
agrediu Xandão tivesse sido expulso, como merecia.
Reservamos o direito de apresentar queixas quando
elas são justificadas e o jogo em Barcelos oferece
amplas razões para isso. Não significa, contudo, que
andamos distraídos quanto aos outros relevantes
factores em torno do nosso Clube.




De jpt a 27 de Março de 2012 às 01:21
Como disse abaixo perdoe-me a demora em notar o seu comentário. Gostaria apenas de referir dois pontos:a) em nenhum momento critiquei o nosso treinador, pelo contrário, saudei o seu risco ("correu mal", mas isso é outra coisa). Quanto à equipa apenas disse que não jogou bem, isso não é arrasar ninguém. Acontecem melhores dias, piores dias, e médios. Só isso. Gozei, sim, com a divinização que do treinador outros fizeram após Manchester - e são esses apressados idólatras sempre os primeiros a sacar dos lenços brancos.; b) Bruno Paixão é horrível? É, concordo. Os meus cumprimentos


De Sérgio Nunes a 20 de Março de 2012 às 14:09
Não sendo eu um miúdo, com 43 anos, a educação que o senhor meu Pai me deu inibe-me sempre de desrespeitar os mais velhos, seja qual a diferença de idades até porque ele, meu pai, não referiu qual a margem. Posto isto, sabendo que todos somos livres de dizer o que pensamos, permita-me discordar do seu "humor".

Depois de tudo o que temos visto esta época desportiva, não só nos jogos em que somos prejudicados mas também naqueles que outros são beneficiados (só fala de porto e benfica e assobiamos para o lado em relação ao braga) e também naqueles em que somos manifestamente infelizes, fazer um comentário como o seu depois de tamanha pilhagem em 90 minutos, deixa-me desgostoso com a nossa massa adepta! Se mais uma vez deixamos que, utilizando o argumento de que não jogamos nada, os apitadores e as instâncias que os orientam continuarem a a ter esta atitude nunca iremos a lado nenhum.

Por mim apoiava a retirada imediata da equipa profissional de futebol da competição Liga ZON sagres, independentemente das consequências. O escândalo iria ser tão grande e ter tanto impacto que obrigaria, de uma vez por todas, a limpeza e esterilização do futebol português. É uma atitude radical? Claro que sim, como dizia ontem Carlos Freitas: "Não vale a pena apresentar queixa, fazer exposições, etc..." Tenho a certeza que se isto algum dia acontecer, que duvido, o "edifício do futebol" vinha abaixo. Sporting Sempre!


De jpt a 27 de Março de 2012 às 01:16
Peço desculpa a ambos pela ausência de resposta aos vossos comentários, não por qualquer menosprezo, mas só hoje voltei ao blog. Deselegância minha, com um texto recente deveria ter passado antes.
Apesar dos dias terem passado, e dos acontecimentos futebolísticos deste fim-de-semana, não deixo de os notar e agradecer. Não quero prolongar a questão mas alguns pontos:
Sérgio Nunes muito lamento que o faça desiludir com a nossa massa adepta, mas é exagero seu, é um texto individual, não me parece que possa ser sintomático do geral. Há um ponto aqui, ainda que nós, adeptos, costumemos reagir em uníssono nos momentos chaves de um jogo (golo ou afins) isso não implica que uma "massa adepta" tenha que pensar ou ver tudo da mesma maneira. Por exemplo, e sem humor nenhum, eu não vi nenhuma roubalheira naquele jogo e vi um Sporting a jogar mal. Outros viram outra coisa, pronto. Quanto a abandonar a competição, ruptura radical. Já o resmunguei muitas vezes, até este ano. Não neste jogo.

Quanto ao resto permito-me referir alguns encontros meus dos últimos dias. Cruzei vários amigos e conhecidos benfiquistas absolutamente irados com a "roubalheira" que sofreram, indignados com a expulsão injusta (super-injusta) de Aimar. A coisa é mais ou menos a mesma (até porque eu não acredito que haja uma diferença natural entre um benfiquista e um sportinguista, no fundo somos todos primatas racionais): a gente vê o que quer ver. Às vezes (muitas, no que toca a roubalheiras dos àrbitros) coincide com o realmente real. Outras nem tanto. Cumprimentos


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