14 Mar 12
Para dar cabo do futebol em Portugal
José Navarro de Andrade

Se bem me lembro o sr. Mário Figueiredo foi eleito Presidente da Liga de Futebol com alguma surpresa geral. Se também a memória não me falha, a sua vitória deveu-se ao facto de ter feito um trabalho de formiga, granjeando o apoio maioritário dos pequenos clubes, prometendo o alargamento da liga para 18 clubes.

Houve quem pavlovianamente rejubilasse com esta patuleia em que triunfaram os pequenos contra os grandes. Para mais o sr. Mário Figueiredo defendia os pequenos interesses contra os grandes interesses. Sucede que neste caso small is ugly, porque os grandes interesses correspondem aos interesses da maioria dos adeptos, ao passo que os pequenos e paroquiais interesses são meramente  políticos.

Na linguagem crua do negócio, dir-se-á que foram defendidos os interesses dos pequenos fornecedores contra, e lesando bastante, os interesses da maioria dos clientes. Nada de novo em Portugal, é sempre isto que costuma acontecer.

Para não dizerem que falo no ar fiz uma breve análise a partir dos dados apresentados no site da Liga. A métrica utilizada foi a do número de espectadores dos estádios de futebol desde a época 2007-2008 até à época 2010-2011, as únicas disponíveis no dito site. Comparam-se para cada época o total de espectadores com o total dos 4 clubes com maiores assistências e com os 4 clubes com menores assistências.

A disparidade entre o topo e a base é gigantesca e apostava singelo contra dobrado que não tem paralelo na Europa futebolística. Os 4 clubes com mais espectadores são frequentados em média por 74% (!!) do total de espectadores de futebol em Portugal.

No topo, além dos óbvios 3 grandes, só na época passada surge o Braga em detrimento do Vitória de Guimarães. Na base é interessantíssimo verificar que o Paços de Ferreira, o Nacional e a Naval surgem em todas as 4 épocas entre os que têm mais baixa assistência. Depois lá vêm o Estrela da Amadora enquanto não desceu e o Rio Ave depois de subir.

 

Ao aumentar de 16 para 18 o número de clubes participantes na Liga Sagres Zon a partir da parte de baixo da tabela (não consta que ele vá convidar o Real Madrid e o Barcelona a participarem no campeonato português…) o sr. Mário Figueiredo garante aumentar esta absurda disparidade. O que ganham os grandes clubes? Pouco. O que ganham 74% dos adeptos? Nada. O que ganham os interessezitos locais (presidentes de câmara, dirigentes do Desportivo, influentes da terra, empreiteiros da zona, etc…)? Peso. Um peso em nada correspondente à sua influência no negócio, perdão, no futebol.


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5 comentários:
De Outside a 14 de Março de 2012 às 20:22
Mesmo que não lhe lembre tudo e apesar de a memória por vezes esbranquiçar (o branco não é selectivo)...permita-me que lhe diga que está escrito um grande post. Acutilante e rigoroso.

Muito bem...e com elegância omitiu o facto de este negócio! ter sido aprovado para a época imediata, desvirtuando as condições gerais aquando da adjudicação do contrato...como se os "erros e omissões" fossem tratados no fim e não no início do contrato.

Mais uma vez...muito bem.

Fique bem.

David


De José Navarro de Andrade a 15 de Março de 2012 às 01:25
Obrigado David.


De Pedro Correia a 14 de Março de 2012 às 22:19
Muito oportuna, muito pertinente e muito bem fundamentada, esta tua reflexão.


De José Navarro de Andrade a 15 de Março de 2012 às 01:25
agradecimentos leoninos, companheiro.


De Jose Manuel Barroso a 15 de Março de 2012 às 00:14
Caro companheiro: estou de acordo com o essencial do seu pensamento, mas ja tenho duvidas que o grande argumento seja apenas esse (assistências). Teoricamente, aumentando o numero de clubes e logo o número de jogos, o numero de assistentes pode (deve) aumentar para grandes e pequenos - ainda que relativamente mais para uns que para outros. A questão é saber se o mercado portugues do futebol tem capacidade, especialmente agora, de suportar as exigencias do profissionalismo. O primeiro problema, penso eu, é o da sustentabilidade dos clubes - aquilo a que a Uefa chama de regras do 'fair-play'. Ora a degradação da situação economico-financeira dos clubes tem sido constante. Clubes (muitos) há que devem varios meses de salários aos seu jogadores, técnicos e funcionários,mas atuam no mercado contra clubes que são bem melhor geridos. Em concorrência desleal. O problema é saber, penso eu, se tantos clubes profissionais têm bases de sustentação local ou outra para competir profissionalmente - em tempo de diminuição das receitas autárquicas, de crise da construção civil, de publicidade das empresas, do crédito da banca, etc. Esta têm sido a base dos apoios financeiros aos clubes. Um clube pode ter assistências reduzidas, nos seus jogos com os pequenos, e ter as suas finanças mais ou menos equilibradas (o Nacional,p.e.). A sustentabilidade é O problema.


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